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Antes, o leitor!

Lulih Rojanski

Aprendi a ler com uma revista em quadrinhos do Gato Felix, no início dos anos 1970 – um tempo estranho em que eu me sentava na mesinha do jardim de infância diante de uma folha em branco e só sabia desenhar um gato com o número oito. Um tempo em que descobri que havia um jardim de infância para os pobres e outro para os ricos, e que por mais que eu e as demais crianças lêssemos e aprendêssemos a desenhar outras coisas, não nos promoveriam a um jardim melhor que aquele que nos cabia. 
Não sei se por uma precoce resignação ou por inspiração divina, passei a me concentrar na leitura. E para chegar aos livros infantis, que só estavam disponíveis na sala de aula do jardim, tudo o que eu vivia me parecia uma aventura, ainda que uma aventura solitária. Levantava da cama às seis horas, vestia o uniforme, calçava os sapatos e andava por oito quarteirões. Sozinha, aos cinco anos de

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idade.

Hoje não consigo mais pensar nisso como uma aventura – já se passaram 50 anos! Vejo uma estúpida negligência familiar e não posso nem quero imaginar minha neta andando pelo mundo sozinha em busca de livros. Podem até dizer que os tempos eram outros. Mas criança é criança em qualquer tempo.

Ensaiei bastante para dizer que comecei a ler cedo: aos cinco anos, às 07h. De lá para cá, tentei ler o suficiente para me fazer sentir que podia ser o que decidi ser: escritora, pois jamais, em tempo algum, cheguei a pensar que pudesse me autointitular escritora sem haver lido os romances obrigatórios do Ensino Médio, que para a minha sorte foram os clássicos da literatura brasileira, como os de Machado de Assis, José de Alencar, Aluísio Azevedo, Lima Barreto, Bernardo Guimarães, Érico Veríssimo... Depois os clássicos estrangeiros: franceses, russos, ingleses, norte-americanos, latinos... E então tudo o que me caiu nas mãos.

Não há utilidade nenhuma em enumerar o que li. Se enumerei um pouco, foi para enfatizar que, ou você é Carolina Maria de Jesus – e vai escrever os livros mais lindos com a sabedoria adquirida a partir do seu mais genuíno sofrimento, ou você vai ter que ler os mestres para aprender a escrever! E ainda pode acontecer de você apenar ter a ilusão de que aprendeu. Ou você é Bukowski, e vai produzir uma incrível literatura marginal, realista, irônica e socialmente crítica, baseada em tudo o que você aprendeu nas ruas (e também nos livros), ou você vai ter que ler Gabriel García Márquez, Clarice Lispector, Rubem Braga, Lygia Fagundes Telles, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Hilda Hilst, Guimarães Rosa, Nélida Piñon, Ana Miranda, Jorge Amado, Elvira Vigna, entre centenas de outros.

Ninguém se torna médico, advogado, professor, quiroprático ou espanador de esqueleto de dinossauro sem se debruçar sobre os livros. Todo profissional é, antes, um leitor. Por que alguém se tornaria escritor sem haver conhecido As Veias Abertas da América Latina? Sem haver viajado Vinte Mil Léguas Submarinas? Sem haver experimentado A Insustentável Leveza do Ser?

Por que alguém diria que é poeta sem saber que Meu Quintal é Maior Que o Mundo? Sem haver calçado um Sapato Florido? Sem haver sentido Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada? Hein?

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