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Letícia Bassit - Arte e feminismo além de rótulos

Atriz? Performer? Escritora? Dramaturga? Diretora? Arte-educadora? Mãe?… Talvez, de todos os substantivos possíveis, MULHER — assim mesmo, com todas as letras maiúsculas — seja o que melhor a define. Isto porque ela pode e ela é tudo o que quiser. Só não pode ser limitada a um rótulo, a um currículo. Mas, ok, tudo bem. Se você, leitor(a), ainda é daquelas pessoas que, em pleno século XXI precisa de rótulos, permita que eu lhe apresente Letícia Bassit, atriz, escritora, mãe e autora do livro Mãe ou Eu também não gozei (Claraboia; 2022 2ªed.), um verdadeiro manifesto pelo direito da mulher ser quem ela é em toda sua plenitude; um testemunho lúcido contra toda a hipocrisia que permeia a “família tradicional brasileira”.

Nascida em São Paulo, Letícia começou a estudar teatro aos 14 anos e, desde então, pesquisa sobre o corpo e os limites entre realidade/ficção, verdade/mentira, ilusão/invenção. É formada pela Escola de Arte Dramática da USP e graduada em comunicação social pela Fundação Cásper Líbero. É ainda mestranda em artes cênicas pela ECA-USP e desenvolve oficinas de escrita, teatro e performance.

Tem trabalhos voltados para as temáticas do feminismo e da parentalidade.

 

Letícia Bassit é uma voz feminista e, sobretudo, feminina necessária na arte contemporânea e, especialmente, na literatura brasileira do nosso tempo. Seja no teatro, na escrita ou no cinema, ela consegue transmitir suas verdades ainda que pelos artifícios da ficção, da ilusão, da invenção. Seus textos podem ser classificados como autoficção – termo cunhado por Doubrovsky em 1977 para se referir a uma forma de autobiografia ficcional.

 

Exemplo disso é seu livro de estreia, Mãe ou Eu também não gozei, que nasceu como texto para teatro, ao mesmo tempo em que se transformou em livro que já está em sua 2ª edição e que também foi se metamorfoseando no cine-documentário dirigido por Ana Carolina Marinho, Eu também não gozei, lançado este ano com destaque na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Minas Gerais.

 

Conheça agora um pouco mais de Letícia Bassit, uma voz além do feminismo na arte contemporânea.

Silvio Carneiro

A jornada artística de Letícia começou aos 14 anos, quando ela se aventurou no mundo do teatro. Sua formação, no entanto, é profundamente enraizada na dança, tendo dedicado 17 anos de sua vida ao balé clássico. Embora não se considerasse uma bailarina clássica talentosa, ela reconhece a influência significativa que o balé teve em sua formação artística.

"Não tenho como negar que o balé clássico fez e faz ainda parte da minha formação, da minha noção de corpo, de tempo, de espaço e de toda uma consciência musical também". Essa base sólida no balé clássico não apenas moldou sua percepção de ritmo e movimento, mas também influenciou sua carreira como atriz e escritora.

Aos 14 anos, ela já estava envolvida de forma mais ativa no teatro e passou por várias escolas, incluindo a Escola de Atores Wolf Maia. Ela se lembra com carinho de ser a única menor de idade em sua turma na época. Foi uma experiência que ela considera muito importante para sua formação, principalmente devido à influência de professores notáveis como Imara Reis e Olair Coan.

"Eu me lembro muito bem desses dois professores que até hoje são presentes na minha vida, como influência mesmo, como legado".

Após sua experiência na Escola de Atores Wolf Maia, Letícia decidiu expandir seus horizontes e ingressou na faculdade de Comunicação Social, com habilitação em Rádio e TV. Ela estava interessada no universo da comunicação, especialmente na produção de televisão. No entanto, durante seu tempo na Cásper Libero, ela começou a sentir falta do teatro.

"Eu não aguentava mais trabalhar com produção, eu trabalhei no SBT, na BAND como produtora, mas vi que aquilo ali não era pra mim". Ela percebeu que o encanto inicial que sentiu ao trabalhar com televisão e rádio não era o que ela imaginava. "Principalmente emissoras de televisão, acho que é um universo muito ligado a grana, Ibope, audiência, né? Não tem nada artístico e o que eu achava que eu ia encontrar, não encontrei."

Determinada a seguir sua paixão, ela decidiu voltar ao teatro e se matriculou na Escola de Arte Dramática (EAD). Antes disso, ela passou um ano estudando direção na SP Escola de Teatro e também fez um ano de Macunaíma para retomar o contato com o teatro.

"Eu não tenho receio de dizer que uma das coisas mais importantes que eu fiz na minha vida, se não 'a' mais importante, foi fazer Escola de Arte Dramática", diz com orgulho. Ela passou quatro anos na EAD, mergulhando profundamente no estudo do corpo, da voz, da presença, do coletivo e da criação.

"Eu sou uma pessoa melhor, eu tenho uma relação com o meu corpo e com o coletivo muito mais aprofundado, muito mais consciente depois que eu atravessei a Escola de Arte Dramática", reflete. A experiência na EAD não apenas aprimorou suas habilidades como atriz e artista, mas também a ajudou em um processo de desalienação política. Ela é extremamente grata e se sente honrada por ter passado por essa escola.

Após concluir seus estudos na Escola de Arte Dramática, Letícia ingressou no núcleo de pesquisa do grupo XIX, liderado por Janaína Leite. O foco da pesquisa era o "feminino abjeto", inspirado na obra da atriz e performer espanhola Angélica Liddell, que era objeto de estudo de Janaína na época. A pesquisa também se baseava na perspectiva psicanalítica de Julia Kristeva.

"Eu posso dizer que ali, com Janaína Leite, com o núcleo XIX, eu começo a entender de maneira mais profunda, a verticalizar mesmo a minha pesquisa, o que me interessa no campo das artes cênicas". Foi durante esse período que ela começou a aprofundar sua compreensão de seu próprio trabalho e pesquisa, explorando temas como performance, 

performatividade, autoficção, depoimento, testemunho e autobiografia.

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Não tenho como negar que o balé clássico fez e faz ainda parte da minha formação, da minha noção de corpo, de tempo, de espaço e de toda uma consciência musical também

Letícia destaca que essa experiência permitiu que ela entendesse melhor sua própria investigação dentro das artes cênicas. Ela atribui grande parte de seu desenvolvimento artístico à sua passagem pelo núcleo de pesquisa do grupo XIX e à orientação de Janaína Leite. Essa fase de sua carreira foi fundamental para moldar sua abordagem e compreensão das artes cênicas.

 

No núcleo Feminino Abjeto, Letícia e outras 12 performers se propuseram a investigar o conceito de "abjeto". Sob a orientação de Janaína Leite, elas exploraram esse conceito por meio de diversos dispositivos, dinâmicas, exercícios e provocações. Cada performer seguiu uma pesquisa autoral, embora também houvesse um forte elemento de depoimento e testemunho individual.

"Eu estava lendo a teoria King Kong, da Virginie Despentes, que Janaína também trouxe para o núcleo, e me interessava muito esse lugar da sexualidade da mulher, da prostituição, não como um lugar da mulher vítima da sociedade, mas uma celebração desse corpo". Ela criou uma dramaturgia que entrelaçava seus próprios textos com os de Angélica Liddell, Virginie Despentes e Julia Kristeva, fazendo um paralelo entre a prostituição e o casamento.

Durante suas performances, ela subia em um tablado e cantava um samba no microfone, depois se masturbava com um abacaxi, na tentativa de celebrar e refletir sobre o corpo sexualizado, a prostituição e o casamento. "Eu transformava a dramaturgia, eu transformava a performance, eu transformava o que eu fazia em cima daquele tablado, de maneira a cada vez mais friccionar a sexualidade, a maternidade, o gozo, a reprodução, a procriação", ela explica.

Um marco importante em sua trajetória ocorreu quando ela engravidou durante o período em que estava em cartaz com o Feminino Abjeto. A gravidez, que foi um processo solitário e desafiador, levou a uma fricção entre a figura da mulher sexualizada em cena e a maternidade. Isso se tornou um novo foco de interesse em sua pesquisa e dramaturgia, levando-a a transformar ainda mais sua performance à medida que sua barriga crescia. Esta experiência ilustra a constante evolução e adaptação que é inerente ao processo criativo de Letícia.

Eu sou uma pessoa melhor, eu tenho uma relação com o meu corpo e com o coletivo muito mais aprofundado, muito mais consciente depois que eu atravessei a Escola de Arte Dramática

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Eu também, além de ser personagem protagonista do filme, assino o roteiro da minha própria vida

Durante sua gravidez, Letícia sentiu uma necessidade forte de documentar suas experiências. Ela começou a escrever intensamente - um hábito que cultivou desde a infância. "Eu sempre escrevi muito, desde muito jovem, desde criança, sempre gostei muito de escrever, sempre tive diário, sempre relatei o meu dia pra mim mesma".

Enquanto escrevia, transformava suas experiências em dramaturgia, atualizando constantemente o material à medida que sua gravidez avançava. No entanto, ela também escrevia muito e guardava seus textos, numa necessidade de desabafo.

 

Quando seus escritos foram lidos por amigos e familiares, eles reconheceram o potencial literário de seu trabalho. "As pessoas começam ao meu redor dizer que aquilo era muito bom enquanto material e que eu poderia pensar em escrever algo, porque aquilo era muito potente", ela lembra.

 

Incentivada por essa resposta positiva, ela decidiu se inscrever em um edital ProAC para criação e publicação literária. Quando foi contemplada, começou a organizar seus escritos com o objetivo de transformá-los em um livro. Durante toda a sua gravidez e parto, ela trabalhou na estruturação e organização estética do material, transformando seus textos dispersos e caóticos em uma obra literária coesa.

 

Enquanto Letícia estava em processo de escrita e construção da peça, ela também estava trabalhando em um documentário paralelo. O filme, intitulado Eu

Também Não Gozei, não é uma adaptação do livro, mas sim uma obra independente que acompanha sua jornada pessoal. A diretora do documentário, Ana Carolina Marinho, uma amiga de longa data, a convidou para participar do projeto.

 

"Ana Carolina Marinho, que é a diretora do documentário, soube da minha história e me convidou pra filmar, pra começar a filmar a minha trajetória, a minha história". As filmagens começaram quando Letícia estava com cerca de dois a três meses de gestação.

 

O documentário foi uma colaboração coletiva, com Ana Carolina Marinho na direção, Anna Zêpa e Amanda Bortolo na produção e roteiro, e Luz Bárbara também contribuindo para o roteiro e produção. Letícia, além de ser a protagonista do filme, também contribuiu para o roteiro.

 

"Eu também, além de ser personagem protagonista do filme, assino o roteiro da minha própria vida", ela revela. O coletivo de cinema, chamado Arenga Filmes, se reuniu para contar essa história e organizar o material.

 

O filme acompanhou Letícia durante todo o processo de gestação, parto e pós-parto. Após seis anos de pré-produção, produção e pós-produção, o filme ficou pronto e estreou no Festival de Tiradentes em janeiro desse ano. O filme ilustra a interseção de sua vida pessoal e artística, e como uma alimenta a outra de maneiras inesperadas.

Eu sempre escrevi muito, desde muito jovem, desde criança, sempre gostei muito de escrever, sempre tive diário, sempre relatei o meu dia pra mim mesma

Letícia Bassit é conhecida por abordar questões feministas e destacar aspectos importantes da experiência feminina em tudo que produz. No entanto, ela acredita que seu trabalho é mais feminino do que feminista. Embora ela traga à tona questões importantes, como a maternidade solo e a paternidade ausente, ela se esforça para garantir que seu trabalho não se torne puramente uma manifestação política.

 

"Eu sou feminista e eu digo isso, mas eu tomo muito cuidado para que a bandeira, a minha bandeira política não tome conta, não apague, não silencie a poesia", explica. Ela acredita na estética como política, mas se esforça para manter metáforas, ambivalências e contradições em seu trabalho.

 

Ativa na luta por questões feministas e políticas públicas feministas, no campo da poesia, da ficção e da teatralidade, Letícia acolhe a ambivalência e a contradição. "É quase como eu aponto o dedo pro patriarcado, mas ao mesmo tempo pego esse mesmo dedo e aponto pra mim", ela reflete.

 

Com um trabalho muito focado na autoficção onde autor/personagem/autor se fundem e se confundem o tempo todo, ela teme que questões políticas possam ofuscar a vulnerabilidade de seus personagens. Isso é particularmente evidente em seu documentário "Eu Também Não Gozei", onde ela é vista atravessando um período de gravidez, parto e puerpério. "O estado em que eu me encontro ali, no momento que aquela câmera é ligada, é de pura ambivalência, contradição, vulnerabilidade, fracasso, fragilidade", ela compartilha.

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Eu sou feminista e eu digo isso, mas eu tomo muito cuidado para que a bandeira, a minha bandeira política não tome conta, não apague, não silencie a poesia

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O livro é um pouco esse lugar, né? O sal… o que que é o sal? O que que é o seu sal? Qual o seu sal? Lamber sal é a verdade, o desejo… Qual o seu sal?

Letícia está atualmente trabalhando em seu segundo livro, "Cabra que lambe sal", ainda em busca de uma editora. Ela está ansiosa para publicar este livro, que considera muito importante. O livro é uma exploração das ambivalências do feminino/feminismo, com uma atmosfera que ela descreve como mais poética.

 

"Eu escrevo muito sem pensar nas “caixinhas”. Mas ele é muito etéreo, é um livro mais abstrato, é um livro mais ambivalente, mais contraditório", ela compartilha. Ela vê o livro como um manifesto, mas diferente de "Mãe, eu também não gozei".

 

O livro conta a história de uma mulher que foge de seu apartamento e se depara com uma montanha. Enquanto escala a montanha, ela se transforma em uma cabra, com o objetivo de alcançar o cume da montanha para lamber sal. Letícia explica que as cabras montanhesas lambem o sal que escorre pelas fendas da montanha, pois precisam do sal para a formação óssea.

 

"O livro é um pouco esse lugar, né? O sal… o que que é o sal? O que que é o seu sal? Qual o seu sal? Lamber sal é a verdade, o desejo… Qual o seu sal?", reflete. Ela vê a busca pelo sal como uma metáfora para a busca pela verdade e pelo desejo, apesar da iminência da queda.

 

Letícia está animada para ver como seu segundo livro será recebido e espera que ele continue a explorar e questionar as experiências femininas de maneiras novas e provocativas. E nós aqui, do lado dos leitores, claro, aguardamos ansiosos por este novo trabalho de Letícia.

Letícia Bassit é uma influência marcante no cenário artístico e feminista contemporâneo. Sua abordagem única para expressar a experiência feminina através de várias formas de arte, incluindo teatro, literatura e performance, tem impacto significativo na discussão de questões feministas na sociedade atual. Ela explora a complexidade da experiência feminina, desafiando narrativas simplistas e unidimensionais. Seu trabalho aborda temas como maternidade, sexualidade e vulnerabilidade, incentivando os espectadores e leitores a questionar suas próprias suposições. Além disso, a abordagem pessoal e honesta de Letícia para a criação de arte ressoa com muitos que se identificam com suas experiências.

 

Para saber mais sobre o trabalho de Letícia Bassit e acompanhar suas performances ao vivo, publicações de livros e plataformas de streaming de música, você pode visitar seu Linktree.

 

Sua arte é um testemunho poderoso do impacto que a expressão artística pode ter na promoção do diálogo e da compreensão em torno de questões feministas.

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Comentários (1)

Guest
Mar 11

Inspiradora demais. E muito necessária. Excelente artigo!

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