
Olhos de ressaca
Mathias de Alencar - Macapá, AP

Nequete, daimônico
Tentei fazer com que o café não esfriasse, enquanto eu dedilhava alguma canção, dessas que a gente vai cantando para não morrer de tédio. Dedilhava com certa sofreguidão, ou espanto, ou era alguma incerteza de se as palavras queriam realmente cantar ou permanecer em estado de dicionário. Insisti um pouco mais com o teclado, o do computador, naturalmente, já que era de escrever que se tratava – quem me dera dedilhar meu pobre coração, ou o que vai dentro dele, esse comboio de corda com que fingimos a dor que sentimos! Quem me dera fazê-lo dizer, em sons de violão, o que palavra alguma diz melhor, principalmente quando o melhor é não dizer.
Só pelo aroma, a alma ferve. Aroma. Apreciei essa palavra até não haver mais café, até não haver sensação do seu cheiro, da quentura na ponta da língua – apenas a palavra, suspensa, feito uma brisa sem vento, ou fumaça sem fogo. E pelo sabor de dizer aroma, a gente chega a sentir na boca, ou na ponta da língua, um gosto de amora, seu inverso agridoce, sua gostosura por vezes arredia. Aromamora. Era como Nequete dizia. Na boca, sem gosto, eu rio, imaginando o Rio de Janeiro de minha infância, aqui mesmo, diante do majestoso Amazonas, o rio de meus mergulhos e desvios, o rio que me faz ter certeza de que não se pode amar o Rio senão de longe, naquela cidade da memória, aquecida por mais uma xícara de café – sem açúcar, por favor!
A memória é bicho arredio, traiçoeira. Se for preciso lembrar de algo, não se meta com ela, que ela não volta atrás. Eu voltei, mas foi preciso um pouco mais de café para minha pouca fé no valor que as pessoas realmente dão para o que leem. Desconfio que seja pouco. Para bem poucas, talvez, a leitura valha mais que o ar que respiram. Só por elas, então, confio, pouco que seja, em tentar escrever algo que valha a pena – a da galhofa, mas também a do tributo, a da gratidão. Se volto à infância, à revelia da memória, azeda que só, é para me haver com o aromamora do café, que continuo a beber em tributo a quem me fez acreditar que, na escrita, sempre haverá algum valor a ser mantido quente, apesar do vazio da plateia.
***
Sob o signo de câncer, o velho Edison Curie de Nequete, terror das crianças que, como eu, azucrinavam suas ideias, subiu à ribalta em 1926, com toda dramaticidade que lhe seria característica decisiva. Era um 21 de julho agitado em Porto Alegre, daquelas quartas-feiras em que a semana se divide entre os suspiros de pesar e de alívio pela sua condição indesculpável de meio da semana. Talvez o velho Edison, radicado no Rio de Janeiro desde 1965, fosse para nós, meninos e meninas do subúrbio carioca em Irajá, onde ele morava, o avesso de uma quarta-feira e sua pálida ambiguidade de ser e não ser. O velho Edison era. Sempre dramático, como bom canceriano, esbravejava palavrões e ofensas contra os moleques que aumentavam o tom da risada e das brincadeiras à janela de seu apartamento, situado, lamentavelmente, no primeiro andar do prédio. Os traços da indignação no seu rosto e nas mãos eram assustadores, feito uma encarnação maligna, fosse um velho do saco ou algum vilão caricato de filmes japoneses. Eu tinha oito anos quando conheci sua raiva, e levaria quase o dobro para me dar conta de quem era o Edison por trás daquele velho demoníaco.
Afinal, não se pode reconhecer o que não se conhece. Precisei me conhecer antes de ouvir o velho Nequete elogiar meu destino de vida, sobretudo na escrita. Jornalista e ator de profissão, o reconheci decorando falas do monólogo Platero y Yo, inspirado na obra homônima do escritor Ramón Jiménez. Aos poucos, dei-me conta do quanto de ignorância havia em mim, debochando de sua rabugice como se fosse um ataque e não a defesa de um gênio em meio à mediocridade ao redor. Éramos medíocres. Aos poucos, porém, reconheci sua grandeza, enquanto recusava minha mesquinhez. Como um aprendiz, passei a lhe mostrar o que eu escrevia, desde uma pequena peça sobre Mozart, até alguns contos e poemas. Era tudo terrivelmente medíocre, mas o velho Edison soube identificar algo ali que merecia ser aprimorado. As tardes em que aprendi a dedilhar para compor a métrica dos versos me tinham sido a melhor definição do aromamora sorvido com café – a poesia é lacunar, dizia ele, segurando meu braço como se me tomasse pelo caminho, para evitar que eu caísse. A raiva que eu senti, depois de observá-lo cortar meus versos para enxugá-los ao limite da expressão, teve o belo preço dos remédios amargos, que nos curam da tolice de nos acreditarmos melhor do que realmente somos.
Somos medíocres. E se alguns conseguem escapar da mesquinhez geral, é ao preço de se manterem isolados, nutrindo muitas vezes uma rabugice de quem precisa não se deixar levar pelo que é tosco e ingrato. O velho Edison não esteve imune a isso, de todo. Pois a solidão, não raro, se torna isolamento, se temperada pela ingratidão. Ingrato e tosco com quase toda a vizinhança, permaneceu avesso àquela cordialidade que forma as amizades, pagando o preço amargo de um exilio inevitável. Seu reconhecimento internacional pouco lhe valera afinal, senão uma ou outra visita de amigos famosos ou viagens a convite. No fim, quem esteve ao seu lado eram suas vizinhas de porta e de prédio, entre elas minha tia que, sendo enfermeira, o salvou algumas vezes e adiou sua morte. Por coincidência, Nequete não conseguiu ser salvo pela última vez, morrendo ali mesmo em Irajá, no dia 23 de novembro – dia do aniversário de minha tia.
Era uma terça-feira do ano 2010. Eu tinha recentemente voltado a ser seu vizinho, depois de terminar meu primeiro casamento. Irajá sempre foi, para mim, lugar de retorno, de recomeço, apesar das mesmas coisas e pessoas, ou talvez exatamente por isso. Ainda mais do que Botafogo, onde nasci. Cada vez que eu retornava ao bairro, me sentia grato pela oportunidade de conviver, pouco que fosse, com a maestria do velho Nequete, com aquela artesania de palavras dedilhadas em sua máquina de escrever. As lembranças do monstro assustador, que nos aterrorizava por diversão (a nossa, mas também a dele), cediam espaço agora àquelas qualidades de seu gênio, impossíveis de serem reconhecidas por quem não o conhecera além das aparências. Pude reconhecê-las a tempo, para minha própria salvação. Os gregos têm uma boa palavra para dizer sobre esse ser espantoso, devido à ação que provoca – Edison era uma espécie de daimon, um exímio provocador (em exílio).

Anos antes, Nequete me ofereceu um exemplar de seu único livro, como uma espécie de recompensa pelo tempo em que havia me tomado ali, à sua porta, para lições de poesia. Eu iria demorar a desfrutar de todo o sabor de erudição que o livro condensa, porque demoraria mesmo a assimilar o valor de todas aquelas tardes de leituras, de conversas, de aprendizado. O Edison ator e poeta estava bem mais vivo em mim que o Edison escritor ou jornalista. Os caminhos da poesia são feitos de linhas tortas, que se sente às tontas, pelo simples prazer de caminhar. O livro de Nequete, Rubiáceas em Maringá (2001), poético desde o título, conta em crônicas a saga dos nossos prazeres com o café, como fosse um adendo necessário à história do Brasil e do mundo. Recheado de peripécias e de anedotas inquietantes, ficamos ainda mais apaixonados pela bebida que já aprendemos a amar tanto. Existe, por certo, uma diferença entre o amor admirado de seu objeto e o daquele que o ignora, amando apenas o prazer por ele provocado. Uma das qualidades do livro de Nequete está em nos conduzir a essa admiração pelo café e por sua história, histórias que enseja e que deseja. Não há de beber café do mesmo jeito quem tenha lido o seu Rubiáceas.
Jamais escrevi do mesmo jeito depois de reconhecer a arte que me faltava em Nequete. Os livros, sozinhos, não são capazes de nos ensinar a técnica que só uma outra alma, em carne e osso, traduz. Livros são partituras, e dependemos de outro músico para nos mostrar a sonoridade possível de um instrumento. Aspirantes a escritor acreditam ter domínio das palavras, enganados pela convivência diária com a língua. Mas a literatura, como qualquer arte, exige tomarmos as lições de um artesão, para não morrermos de nadar na superfície acreditando encontrar tesouros desconhecidos nas profundezas. É a falta de cultura literária entre nós que torna os mestres das letras ainda tão desconhecidos, mesmo para os que anseiam viver da escrita. O velho Edison de minha infância morreu desgostoso com esse destino, mas não precisamos chafurdar na mesma mediocridade.
***
Era já o terceiro café, fumegando seu convite para ensejar histórias, aquelas que desejam ser ouvidas nem que seja para vencer o tédio, fosse por vinte leitores, quando muito, dez... Dez? Cinco talvez, e terá valido a pena contá-las. O velho Edison Nequete talvez não saiba quantos lhe serão gratos por nos haver transmitido o legado de nossa miséria. Eu, porém, jamais esquecerei a força daimônica de sua presença, ainda que a memória, arredia, me faça esfriar outra vez o café, enquanto dedilho essas canções de infância, feito tributo à vida e à arte de quem descobre na palavra tudo que há para ser.
Terminado de sorver o livro, fica ainda na memória o aroma, alguma coisa do drama, dos gestos, da fisionomia transtornada pela raiva, pelo espanto, pela alegria, e o cheiro da solidão, do destino inevitável dos que desejam não morrer medíocres. Se ainda hoje preciso aprender essa lição, é para evitar padecer do desgosto em deixar esfriar a carne, ingrata e sem esperança. Pode a plateia estar vazia, mas estaremos cheios de arte – porque não importa salvar o mundo inteiro e perder a própria alma.
Salvemo-nos!

É o amigo Wagner, irmão do Wanderson, filho da agora também saudosa Helena. Obrigado pelo prazer de texto, sempre primoroso, e neste caso despertador de saudades. Até do "brabo" Nequete dá saudades, que expandem na velocidade do espaço-tempo desacoplado quando se sabe desse Universo de Arte que era, é, essa figura icônica da aurora das nossas jornadas. Briguei com ele, xinguei de volta, juntei com outros moleques e molecas relutants para espiar pela janela dele e confirmar se era mesmo, como se dizia, vampiro daqueles de dormir em caixão e tudo, mas havia parte de mim que o admirava e se entristecida com sua trágica solidão no ocaso de sua vida, parte minha tão grande quanto o temor e o ressentimento do irascível rabugento que parecia odiar crianças. Muito bem identificado por você como o descolamento até involuntário de quem levou alma e mente aos meandros da existência por meio da Arte e Conhecimento, e que assim se exaspera com o primário e precisa agir com esforço para lidar com os ímpios, feito nós éramos. Muito obrigado por escrever tão bem, caríssimo Mestre Cesar, a poesia de nossas memórias. Abraço grande!
Amei seu texto tributo...So mesmo uma alma sensível seria capaz de captar o valor de um "velho rabugento" que para quase todos, era apenas uma pessoa não quista, um ser ingrato ...Parabéns pelo seu olhar profundo, que hoje com a maturidade, conseguimos ver além daquela "casca grossa".
Os "gênios" tende a isolar-se, nao são compreendidos, eles não compactuam com o social, preferem seus devaneios e companhia dos seus livros a festas ou eventos.
Ele deixou seu legado, a prova está no seu reconhecimento e na sua gratidão.