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A natureza da mordida, de Carla Madeira

Já me dei conta de que os livros de Carla Madeira são daquele tipo que provoca opiniões acaloradas, um pavio de afetos que acende a brasa do amor ou do ódio, numa quase exata proporção de intensidade que explica toda obra literária pela sua tarefa de nutrir a vida humana de sentido. A razão de ser de A natureza da mordida (Record; 2022) está mesmo em provocar o leitor ao sabor intenso de se experimentar como alguém que se compraz ou se revolta pela boca debochada da vida, a depender do momento em que ela, a vida mas também seu símbolo, a leitura, nos morde. Quem chega a ser mordido pelo livro de Carla, há de odiá-la por isso, pela ferida que se sente ingrata e inútil. Quem chegar a amá-la por isso, talvez tenha sentido, na mordida, o sentido de estar vivo. "Às vezes é preciso morrer para voltar a existir". A mordida da vida, a morte, é um pavio de afetos que nos acende a brasa do amor ou do ódio, a depender de como lidamos com a ferida que fica, que não pode ou não deve sarar, para

jamais esquecermos de nossa finitude, da gratuidade do existir. A mordida de Carla, em seu livro, é um símbolo para o que significa não deixar a vida se perder sem sentido. E só por isso, seus leitores já serão gratos em, mais uma vez, desfrutar da beleza de suas palavras.

Essa prosa bem torneada poeticamente tem, no entanto, seus revezes. Por vezes a entrada na história parece se arrastar em razão de um tipo de exercício pedante de falar pouco e bonito. Só que a prosa de Carla, que conhecemos bem desde Tudo é rio (Record; 2021), tem sua força de sugestão exatamente nesse ofuscamento da linguagem cotidiana que a poesia provoca, ao tirar as palavras de seu lugar rotineiro, ao pôr no lugar da rotina aquilo que só em literatura se faz ouvir. Afinal, um realismo que seca o sabor das sugestões poéticas em favor de uma maior fidelidade ao real, seja isso o que for, é mero pretexto de denúncia antiliterária. O encontro das personagens Olívia e Emma jamais poderia ser descrito em tons desse realismo seco, sem perder a força sugestiva do que tal encontro irá construir de solidamente feroz e delicado para nós, feito uma boca que beija e morde e nos deixa depois com água na boca. As duas, como se formassem os dois lábios de uma boca que, além do beijo e da mordida, está disposta sobretudo a falar, contam e trocam seus desafios, em cada encontro, até reencontrarem o sentido para dizer mais do que era preciso silenciar. A boca, essa abertura ao mundo que somos pela palavra, pela voz, só pode transmutar o silêncio do beijo e da mordida por uma incrível coragem de dizer. É pois exatamente ao pôr a mordida da vida em palavras que Olívia, a jovem jornalista, nos força ao auge desse nosso encontro com a prosa de Carla Madeira.

 

Narrar a própria história se confunde com a necessidade de pôr a limpo o passado para seguir de algum modo, e esse pôr às claras tem o peso e a delícia da escrita. Olívia, incapaz de simplesmente dizer seu passado, escreve para que Emma o leia. Emma, por sua vez, a anos entregue ao silêncio que a afasta da filha Teresa desde que o marido Teo delas se afastou sem nada dizer, precisa da escrita para passar a limpo alguns pontos de sua história, para que Olívia, aquela moça que tanto lhe parece dizer pela sua presença, leia seus desvãos à beira do delírio. É mesmo no instante em que a velha Emma, que enlouquecida chama a si mesma de Biá (palavra que em grego diz violência), decide outra vez pelo silêncio, mas agora o definitivo, a desistência completa de continuar vivendo, ouviremos a história de Olívia, a dor sofrida pelo abandono da amiga Rita, e o desfecho que deixa a ferida da mordida ainda aberta, apesar da cumplicidade das duas. Apesar da escrita. No ponto alto da trama de Madeira, jorra a torrente das vozes de duas mulheres que se entendem pela dor e pelo caos. "Só as mulheres sabem o que é ter um ventre. Um entre. Um fique até estar pronto. Um se alimenta de mim". A força desse lugar em desnível, desse estar sendo até que não seja mais, traduz a violência em beleza e perdão, o silêncio e o abandono em cuidado e desejo. Somos deixados entre os dois afluentes de uma palavra que nos convida a dizer sobre nós, com a força das marés.

Há coisas, porém, que jamais voltam. Eis a mordida, a dor de existir. Haverá sempre um amanhã, a despeito de nós. A vida, ficamos sabendo por Biá, ri de nossos sonhos e ilusões, com sua boca desdentada, e porque desdentada, incapaz de morder. Afinal, não é a vida que morde, é a morte, e todas as suas formas de dizer através do abandono e do silêncio, da resistência e da desistência. Ao se encontrarem, os destinos de Olívia e Emma afluem para uma só direção, ainda que ao final seja preciso outra vez voltar ao passado, como fez Teresa em direção ao pai, como fez Olívia em direção à mãe. O silêncio eterno da voz de Emma ecoa ainda ali, nos porões de cada palavra proferida por elas, assim como a voz de Rita, e de todos os que perdemos. Porque, afinal, a literatura tem a grandeza de nos fazer sentir, desde o pavio dos afetos, a dor da perda e do silêncio eternos. Carla Madeira, em A natureza da mordida, fez algo de definitivamente grande, a ecoar ainda um bom tempo depois da leitura.

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Mathias de Alencar é poeta e professor na Unifap e na pós-graduação em Filosofia na UFPA. Recebeu o prêmio literário Sweek Tomorrow (2017) pelo melhor conto escrito em língua portuguesa. É autor de um romance (Falosofia de Mulher; 2016) e de dois livros de poesia (Poemalimpo; 2016 e Ninguém há de doar-se a dois amores ou Julieta; 2023), além de outros dois livros na área de Filosofia. Muito influenciado pela linguagem da poesia teatral e pela prosa de Woolf e Joyce, de Hesse e Machado, tem se dedicado a uma poética que ao mesmo tempo seja uma narrativa e explore as imagens e os sons das palavras como potências da experiência estética de uma arte ritual.

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