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Dois dedos de prosa e uma pia cheia de louças e versos

Eu acompanhava a programação da Casa Gueto, na 21ª Flip. Foi uma tarde confusa. Os lançamentos dos autores que estavam marcados para a parte da manhã e início da tarde acabaram atrasando e se misturando com o sarau que estava programado para as 18h que, por sua vez, acabou se misturando com o lançamento da coletânea Imagens de coragem (Patuá; 2023). Mas, no final, tudo deu certo (ou não). No meio da balbúrdia, esbarrei com as escritoras da coletânea e consegui alguns autógrafos e registros fotográficos. Entre elas, uma moça muito simpática e simples se apresentou como uma das autoras da coletânea, pegou o exemplar que eu carregava, percorreu as páginas até encontrar seu conto e escreveu: "Com amor e fúria, Carol. Flip, 2023". No longo caminho de volta à Macapá, entre conexões e filas para o cafezinho, vim lendo e anotando minhas impressões, principalmente sobre as escritoras que eu não conhecia. Uma delas, a Carol, que dedicou seu conto, Faca de

matar porcos, com "amor e fúria".

Era a primeira vez que eu tinha contato com seu texto e gostei muito. Daí, começamos a nos seguir nas redes sociais e, pouco a pouco, pude conhecer um pouco mais do seu trabalho.

A moça simpática e simples que escreve bem e sabe brincar com as palavras é a jornalista, escritora e agora também poeta e mãe (não necessariamente nesta ordem), Carolina Bataier, que teve seu primeiro livro de crônicas lançado em 2018, O pôr do sol dos astronautas, pela editora Letramento e, em 2023, lançou seu segundo livro, Pia cheia, primeiro de poesia, pela editora Patuá.

Acompanhe a seguir os dois dedos de prosa que tive com essa caipira (como gosta de se apresentar) de Duartina, interior de São Paulo e que se define como uma "apreciadora da vida sem pressa".

Silvio Carneiro

A CONSTRUÇÃO DA ESCRITA

O Zezeu: Como você descreveria a evolução da sua escrita desde o início da sua carreira até agora?

Carolina Bataier: Quando eu comecei a escrever, eu passei por um processo que é comum pra muita gente, que é a escrita como um desabafo. Uma escrita muito relacionada à nossa vida, ao que está acontecendo no nosso cotidiano, enfim, ao que a gente está vivendo. Eu tive essa fase quando eu tinha blogs.

Depois, eu publiquei o meu primeiro livro, O pôr do sol dos astronautas (Letramento; 2018), que é um livro de crônicas de não ficção (elas partem de acontecimentos cotidianos).

Quando eu penso nos meus livros – olhando O pôr do sol dos astronautas e, agora, o Pia cheia (Patuá; 2023) – eu vejo que a minha escrita evoluiu no sentido de eu conseguir “ficcionalizar” mais; de consegui brincar mais com a escrita; criar personagens; criar situações.

O Pia cheia é uma obra ficcional. Ele não tem nada de desabafo… tem a minha vida ali, tem as minhas observações, mas é ficção. E eu vejo isso como um caminho evolutivo, sabe? Eu conseguir me apoderar da escrita e tomar a liberdade de brincar com ela, de inventar e – de vez em quando, sim – usar a escrita pra desabafar; pra falar coisas do meu cotidiano; coisas que eu vi mas, mais que tudo, de usar a escrita como ferramenta de brincar com a realidade; de criar novas realidades; de reinventar o passado – que é como eu falo na dedicatória do Pia cheia.

Eu percebo que a minha escrita foi ficando mais livre e, ao mesmo tempo em que ela foi ficando mais livre no conteúdo, eu acho que fui ficando mais séria no processo de escrita, de entender escrita como trabalho.

Conforme eu fui escrevendo, fui me envolvendo com a escrita, eu fui desmistificando aquela visão de que escrita é dom. Escrita não é dom. Escrita é trabalho: é leitura; é entender forma; entender processos criativos… e aí eu fui levando ela mais a sério.

Eu acho que isso fica um pouco nítido também quando a gente lê um livro e depois lê o outro – compara o primeiro com o segundo.

O Zezeu: Quais são suas principais influências literárias?

CB: Eu gosto muito de citar nas minhas influências literárias as pessoas que estão escrevendo hoje. Principalmente as mulheres, que eu tenho lido muito. As novas poetas que mostram que a poesia é um lugar de coragem, de fúria e também de acolhimento; um espaço pra gente falar de nós mesmas e pra gente expor a nossa arte… enfim, é um espaço nosso. E aí eu vou mencionar aqui algumas pessoas que eu tenho lido muito, recentemente, que eu acho que, de alguma forma, acabam me influenciando: Tem a Tatiana Lazzarotto, que é uma amiga muito próxima e escreveu um livro lindo chamado Quando as árvores morrem (Claraboia; 2022); além de ser uma das organizadoras do Imagens de Coragem, junto com a Isabella de AndradePaula Gomes, que tem uma escrita muito divertida e muito gostosa de se ler; Thaís Campolina, que também faz parte dessas pessoas que escrevem o cotidiano e que me inspiram; e muitas outras, como Angélica Freitas; Ana Martins Marques; Lilian Sais, Sony Ferseck, que também está no Imagens de Coragem... tem uma poeta que eu descobri meio por acaso no Instagram, o nome dela é Elisa Mendes, que também tem uma escrita muito livre, muito gostosa e tem a Giselle Ribeiro, poeta maravilhosa, autora do texto de orelha do meu livro, que me ensinou muito a brincar e provocar as palavras. E tem muito mais gente, mas, de cabeça, me vêm esses nomes.

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O Zezeu: Você poderia compartilhar um pouco sobre o seu processo criativo? Existe algum ritual ou hábito que você segue quando está escrevendo?

CB: Meu processo criativo agora não está fluindo muito bem porque eu estou trabalhando como repórter e acabo ficando um pouco esgotada. Mas quando eu escrevi o Pia cheia, eu escrevia todo dia um pouquinho – isso é o mais importante, todo dia tirar uma horinha pra escrever. E agora que eu não estou conseguindo fazer isso, eu anoto coisas – anoto mesmo à mão (eu gosto de escrever à mão) – e aí eu vou escrevendo as ideias, depois eu volto a elas pra ver se vão render algum texto.

O Zezeu: Como você decide quais temas explorar em suas obras?

CB: O Marcelino Freire (escritor), um dia falou uma coisa que, pra mim, foi muito marcante. Ele disse: “Escreva sobre aquilo que só você pode falar”. Antes eu fazia isso meio que intuitivamente. Meu primeiro livro fala muito da vida no interior; de algumas memórias de infância; da casa dos meus avós… e esse meu segundo livro fala um pouco da experiência de ser uma mulher; fala muito de maternidade e também fala das minhas antepassadas, das minhas avós e bisavós. Eu acho que a minha escrita é uma escrita de detalhes. Esses são os temas do meu trabalho. Então, o sol que entrava pela janela da casa da minha bisavó, num fim de tarde, ou a minha bisavó aguando as roseiras do quintal dela enquanto o gato dormia na janela, o jeito como o meu gato se espreguiça embaixo do sofá depois de trazer pra casa um passarinho assassinado… minha escrita é isso. É o olhar de quem está parado num canto, observando as coisas banais, as coisas simples da vida. Eu acho que a minha escrita, se a gente fosse pensar num tema mais amplo, seria uma revolta contra esse sistema que nos pede pressa. E aí essa revolta se desfaz em observações dessa miudeza, sabe? Nesse cotidiano tão maluco que a gente tem, com tantas tarefas, tantas cobranças, a gente poder parar pra observar um gato dormindo embaixo de uma pitangueira, no quintal de uma casa muito velha, de uma cidade bem pequenininha do interior é um privilégio e também um ato de resistência contra a velocidade que as coisas têm tomado.

PIA CHEIA

O Zezeu: Como a sua experiência como jornalista influenciou a sua escrita em Pia cheia?

CB: Eu não sei se a minha experiência como jornalista influencia a minha escrita. Eu nunca tinha pensado nisso… eu ia dizer que não. Mas aí eu lembrei que tem um poema que fala de quando eu visitei uma caverna no Parque Peruaçu. E aqui eu abro um parêntese: Eu disse que Pia cheia é um livro de ficção e que não tem relatos meus, mas, assim, alguns desses poemas nascem de coisas que eu vivi. Embora, depois, eles se tornem ficção. Um poema pode começar de uma visita minha à caverna, mas se tinha realmente uma carcaça de passarinho lá dentro, ou não tinha, isso eu não vou contar pra você. Eu não conto para os meus leitores. Aí fica na imaginação de cada um.

Mas eu acho que a minha experiência como jornalista influencia a partir do olhar. A Carolina repórter, jornalista, tem que ter um olhar muito sensível e apurado para as coisas que importam. E a poeta também. Embora o olhar da jornalista vá ser guiado por um tipo de história, vá percorrer alguns caminhos, o olhar da poesia me chama pra outros.

Mas é o mesmo olhar atento de quem está quietinha, sentada ali no canto, numa cadeira, observando o que está acontecendo ao redor. E prestando atenção naquele rapaz sentado ali embaixo do pé de jabuticaba, enrolando o cigarro de palha e o jeito que ele fala; ou a mulher que segura duas crianças pelas mãos enquanto atravessa uma rua… é esse o olhar. O olhar que está entendendo o que está acontecendo e esperando alguma outra coisa acontecer.

O Zezeu: No livro, você explora temas de maternidade e vida cotidiana. Como esses temas se relacionam com a sua própria experiência de vida?

CB: Esses temas se relacionam diretamente com a minha experiência de vida. Eu escrevi esse livro logo depois do nascimento da minha filha. Foi naquele momento em que eu estava em casa, vivendo o puerpério e tinha muito tempo em casa, mas pouco tempo pra mim. A gente ainda vive numa sociedade em que as mães são reduzidas à função materna – a partir do momento em que você é mãe, você não pode ser uma mulher que sai, que vai pra festas, se diverte ou, quando você está em um ambiente sem seu filho, é muito comum que as pessoas olhem e falem “ué, mas cadê a crianças? Ficaram com quem”? E essa criança tem pai, tem família… em alguns casos, outros não, mas enfim… o que eu estou falando é desse peso da maternidade na vida da mulher. Curiosamente, minha filha começou a chorar e eu estou aqui dando essa entrevista e amamentando. Acho que isso já é uma resposta. Pia cheia é uma obra de ficção, mas nasce daquilo que eu estou vivendo, daquilo que está me tocando, que está ao meu redor enquanto eu escrevo. E ao mesmo tempo, esse livro é também uma obra de demarcação de espaço. Não é por acaso que eu escrevi durante o puerpério. Porque foi um movimento de dizer, “olha, eu sou mãe, sim, mas eu continuo sendo escritora, continuo sendo criativa, continuo tendo o desejo de fazer muitas outras coisas”. Talvez eu esteja num lugar de privilégio, porque o pai da minha filha é presente, ele está comigo, a gente tem uma rede de apoio considerável… talvez isso nem me acontecesse tanto assim, essa realidade que muitas mulheres passam, de se verem reduzidas à função materna. Mas eu acho importante demarcar esse espaço. Por via das dúvidas, sou mãe, mas também sou uma escritora… ou sou uma escritora que tem uma filha!

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O Zezeu: Em sua apresentação na coletânea Imagens de coragem você se descreve, além de escritora e jornalista como “caipira”. E eu já vi você mencionar também ser “uma apreciadora da vida sem pressa”. Como esse teu lado caipira consegue sobreviver em meio à concretude dos centros urbanos por onde você transita e como isso se reflete em sua escrita em geral e em Pia cheia, mais especificamente?CB: Quando eu falo sobre a identidade caipira, é uma fala em respeito ao lugar de onde eu vim. Porque eu acredito que os lugares de onde a gente vem moldam muito o que a gente é. E eu morei muito tempo em sítio, quando eu era criança. Meus avós são pessoas que sempre trabalharam com sítio, com roça, com coisas do campo, meus bisavós também, e isso faz muito parte de quem eu sou. E mesmo que eu tenha essa vivência de

grandes cidades, sempre viajando muito, eu não perco isso. Eu sempre preciso tomar o cafezinho-da-manhã tranquila, ver o céu, conversar com as pessoas… quando eu fui morar numa cidade maior, uma coisa que eu achava muito esquisita era que passava uma ambulância na rua e ninguém parava assim “ué, o que aconteceu?”. Você está numa cidade grande, passa uma ambulância e a vida continua – até porque não tem como não continuar, né? Se a gente for parar toda vez que passa uma ambulância, um carro de bombeiro ou de polícia a gente não faz mais nada. Mas isso me causava um pouco de estranhamento. Porque eu sou de lugares que, se passa a ambulância, já sai todo mundo no portão, se olha e fala assim: “Nossa, eita! Será que foi o Niquinho, ali da farmácia? Porque eu ouvi falar que ele tava doente”. Aí o outro, do outro lado já grita: “Não! Eu acho que foi a Fátima, porque...”, sabe isso? Essa coisa assim? Isso é meu. É um olhar meu. E sem juízo de valor! Eu não estou dizendo que quem mora na cidade é insensível. Eu só estou dizendo que faz parte da minha personalidade, mesmo estando numa cidade grande, ter o olhar de quem veio do interior, de quem foi criado ouvindo canto de passarinho. E mesmo eu tendo essas vivências de cidades grandes, isso não sai de mim. Eu sempre converso com as pessoas, puxo conversa, posso até ser inconveniente às vezes. Mas isso sou eu. E isso vai comigo pra onde eu for.

O Zezeu: Seu livro O pôr do sol dos astronautas é uma coletânea de crônicas. Como foi a transição da escrita de crônicas para a poesia em Pia cheia?

CB: Em 2022, eu fui fazer uma residência literária e eu sempre dizia que não era poeta. Eu sempre me entendi como uma pessoa da prosa - até pela minha história de vida, mesmo (eu sempre fui de escutar histórias, minha avó contava histórias, meu pai contava histórias) – e aí eu me entendi como essa pessoa que é de contar histórias em prosa. E, durante essa residência, uma poeta querida, a Giselle Ribeiro, me provocou para escrever poemas e eu gostei muito, senti muita alegria. E eu percebi que a poesia também pode ser uma linguagem minha. Eu percebi que talvez eu tivesse uma visão muito formal da poesia, ainda presa ao que a gente aprende na escola, nas aulas de literatura, que poesia tem métrica, rima… e a Giselle me mostrou que a poesia também pode ser um espaço de muita brincadeira – e, aliás, é desse poema que eu gosto, aquele que brinca com as palavras, que tira ela dos lugares onde deveriam estar e faz bagunça com elas – isso me agradou muito. Então essa transição da prosa pra poesia foi muito gostosa, muito tranquila.

O Zezeu: Quais foram os desafios e as alegrias de escrever Pia cheia?

CB: Eu acho que o maior desafio foi entender quando o livro estava pronto. É comum ter esse receio de “será que agora vai?”, “agora foi?”… eu imprimi o livro algumas vezes em papel sulfite, li e reli… e até hoje eu não tenho certeza de que ele está pronto. Mas em algum momento a gente tem que parar com isso e passar pra frente. Acho que esse foi o grande desafio. Agora as alegrias são muitas! Uma grande alegria é ter escrito um livro logo depois do nascimento da minha filha, porque o nascimento de uma criança é um momento de muita fragilidade pra mulher – a gente fica muito confusa com quem a gente é (eu me senti muito assim, perdida) – e ter publicado esse livro, nesse momento, é uma grande alegria. Todas as coisas que vêm depois da escrita – essa entrevista, por exemplo – é uma grande alegria. A literatura pode não dar dinheiro, mas ela traz conexões. Isso não substitui o dinheiro, porque escritores precisam pagar contas, mas é um ponto muito forte, e muito bom. Eu estive na Flip lançando esse livro com a Patuá e foi muito gostoso, uma tarde de comemoração, encontrei amigos, conheci novos escritores, novas escritoras… tudo isso vem no pacote das alegrias.

OUTRAS VOZES, OUTROS MEIOS

O Zezeu: Tem-se percebido, nos últimos anos, um fortalecimento da literatura feminina, assim como de outras vozes “minoritárias”. A última edição da Flip é um bom exemplo disso. Quais são os desafios e recompensas de ser uma escritora independente no Brasil?

CB: Os desafios são muitos, né?! E aí eu acho que não só para as vozes “dissidentes” – vamos chamar assim essas outras vozes que não são os homens brancos heterossexuais e de uma certa classe social. Para as vozes dissidentes são muitos os desafios, mas no geral, eu acho que já não é fácil viver de literatura no Brasil.

Eu estava, ontem, escutando um episódio do podcast da Rádio Escafandro que falava justamente sobre isso, citava o caso de um autor já consagrado, Lourenço Mutarelli, um autor reconhecido, e ele dizia que não estava conseguindo pagar as

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contas dele! E o podcast falava sobre isso, sobre como é que os escritores pagam as contas – e não é vendendo livros.

Mas eu vejo que essas vozes dissidentes têm criado seus espaços de fortalecimento. Isso é muito bonito.

Ainda é muito difícil ser pago, receber um retorno financeiro sustentável, mas a gente está formando redes.

Eu não sei se, em algum momento, essas redes vão nos apontar caminhos financeiros, mas são redes de fortalecimento, importantes e necessárias.

No meu caso, a escrita literária não é minha principal fonte de renda, como é o caso da maioria, então pra mim, a escrita literária é um lugar de experimentação, de encontros, de trocas, de prazeres, de diversão.

O Zezeu: Seus textos já estiveram entre os mais lidos do Medium Brasil. Como você vê a importância das plataformas digitais como O Zezeu, por exemplo, para os escritores contemporâneos?

CB: O Medium hoje está um pouco mais confuso. Eu tenho usado menos, mas ele me trouxe muitas coisas boas. Inclusive muitas escritoras e escritores que hoje eu acompanho, que fazem parte da minha rede de trocas, vieram de lá. E muitos dos meus textos são publicados lá, então eu sei que muitos leitores meus vieram de lá também. Eu acho que essas plataformas são muito importantes. E O Zezeu, que é uma plataforma que fala de literatura é muito importante. Porque a gente tem que ter os nossos espaços de encontro, de debates e de reflexão. É muito necessário. Assim como é desafiador, também, pensar na sustentabilidade dessas plataformas – não a Medium, que já é quase uma rede social, tem um grande financiamento por trás, tem um grande grupo, é um pouquinho diferente de outras plataformas que se propõem a fazer jornalismo independente, comunicação independente, algo assim. Mas todos eles são importantes, de uma forma ou de outra, pra proporcionar encontros, divulgação e pra trazer novos leitores pra quem escreve.

PERSPECTIVAS

O Zezeu: Como você vê o futuro da literatura brasileira e qual papel você espera desempenhar nele?

CB: Eu sou otimista e percebo que existe interesse pela literatura – tanto que a literatura infanto-juvenil vende muito bem. Eu acho que a gente precisa pensar em formação de leitores e facilitação de acesso à literatura. Isso significa mais incentivo para escritores; mais formas de financiamento por meio de editais; mais feiras literárias e mais espaços onde a literatura seja apresentada para o público, onde o público encontre literatura e onde esses encontros, entre quem faz e quem lê, acontecem. Eu acho que, se a gente investir nisso, o futuro é lindo! Mas pra investir nesses modelos, nessas propostas, é preciso entender que cultura é importante, que literatura é importante e isso passa, também, por política. Resumindo, a gente precisa que a cultura seja vista como relevante; que ela tenha fomento; que ela seja respeitada, seja levada a sério pra que a literatura tenha seus espaços e pra que a gente consiga formar leitores e investir em escritoras e escritores.

CONSELHOS

O Zezeu: Se você pudesse dar um conselho para escritores aspirantes, especialmente aqueles interessados em escrever poesia, qual seria?

CB: Leiam muito! Leiam de tudo; procurem conhecer coisas novas. Eu sou daquelas pessoas que têm um pouco de distanciamento dos clássicos, porque quando eu comecei a ler, quando eu comecei a me envolver com literatura, os clássicos não conversavam comigo, sabe? Eu não me sentia muito acolhida pelos clássicos. E aí eu fui muito para as leituras contemporâneas. E ali eu me sentia abraçada. Eu me sentia como se eu estivesse numa grande mesa de café-da-manhã, com gente que fala mais ou menos a minha língua, ou fala coisas diferentes, mas que me instigam, me interessam. Então, de repente, é importante a gente ler de tudo pra saber qual é a nossa; pra saber quem é a nossa galera e pra acompanhar essas pessoas, ver como é que elas fazem e buscar nosso caminho a partir dali, as nossas inspirações e continuar fazendo. E também (outro conselho) serem muito políticos. Políticos, no sentido mais direto da coisa. De entender quem é que está do nosso lado; quem é que está fomentando as políticas públicas que vão nos ajudar. Porque a literatura precisa de incentivo, de espaço, precisa ser considerada como algo importante e primordial. E isso passa pela política. E, sobretudo, continuar escrevendo. E, pra quem quer escrever poesia, continuar com o olhar curioso, sempre. Manter o olhar da criança. Aquela criança que vê uma bacia no chão e que não vai passar por ela como se fosse apenas uma bacia no chão. Ela vai botar o pezinho dentro; ela vai virar a bacia pra baixo e vai tentar subir; ela vai jogar uma bola dentro dessa bacia e vai fazer um milhão de coisas. E ela vai rir com isso; vai perceber que a bacia serve como um mini palco, onde ela pode subir e fazer uma brincadeira ou pôr na cabeça e transformar aquilo num chapéu. E ela só faz tudo isso porque ela tem um olhar curioso. E aí ela consegue fazer arte. Isso é importante para os poetas também.

LIVROS

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