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Águas Vermelhas | Atacília Costa Reis*

  • Foto do escritor: Silvio Carneiro
    Silvio Carneiro
  • há 11 horas
  • 4 min de leitura

Imagem de satélite da Foz do Rio Amazonas. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Amazon_River_ESA387332.jpg
Imagem de satélite da Foz do Rio Amazonas. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Amazon_River_ESA387332.jpg

Às margens do rio Cunani, em uma pequena aldeia, morava Amanara com a sua família. Ela adorava ouvir o som da água, o canto dos pássaros, o vento balançando as árvores e sentir o cheiro do barro. Para ela, a terra tinha um perfume único. Amanara amava observar sua mãe manejar o barro e transformá-lo em lindas urnas, que eram usadas como morada para os mortos. O pai de Amanara era o responsável por escolher e coletar o barro que seria utilizado na construção das urnas. Naquela família o barro representava a sua conexão com a natureza.


Aquelas peças de cerâmica eram verdadeiras obras de arte, um conhecimento passado de pais para filhos. Assim, à medida que crescia, Amanara aprendia aquela arte. Começou moldando pequenos utensílios de barro que eram usados em suas brincadeiras com as outras crianças; porém, a cada dia, seus traços se aprimoravam, e ela começou a construir um vaso maior, com reverência escolheu a árvore de uru-ku, para extrair um líquido vermelho como sangue, essa tinta seria usada para traçar os grafismos da peça. Quando começou a fazer os desenhos na peça um sentimento de angústia tomou conta do seu coração, daí veio sua inspiração, e o desenho assumiu formas que as palavras não conseguem traduzir.


 Amanara finalmente terminou sua urna e foi correndo mostrar para a sua família, eles ficaram encantados com a peça, cujo formato revelava a figura de um homem; porém eles não imaginavam o que o destino reservava àquela urna. 


A vida naquela tribo seguia calma, como as águas do rio, mas, assim como a forte chuva que marcou o dia do nascimento de Amanara, cujo nome significa “dia chuvoso”, uma tempestade estava prestes a mudar o rumo daquela tribo.


Aquele dia foi como qualquer outro: seu pai saiu para caçar, enquanto sua mãe ficou na oca moldando vasos. Ao entardecer, jantaram como era costume da família. Após o jantar, todos foram se deitar, mas, às 20 horas, o silêncio da noite foi invadido por um barulho até então desconhecido para a tribo.


Todos acordaram assustados sem entender o que estava acontecendo. À beira do rio, atracava um barco, e vozes desconhecidas rompiam o silêncio daquela tribo. Aqueles homens, vestidos com roupas esquisitas, causaram estranhamento. A primeira atitude diante de seres tão pálidos foi de curiosidade, porém, à medida que eles se aproximavam, os homens da tribo notavam o perigo estampado no rosto daquelas criaturas.


 Enquanto Amanara, sua mãe e as demais mulheres da tribo aguardavam na oca, os guerreiros estavam lá fora, e uma mistura de sentimentos invadia o coração do povo daquela tribo: a curiosidade, o espanto e a sensação de perigo. 


A noite silenciosa se transformaria em um pesadelo para Amanara e sua mãe.


Quando os guerreiros perceberam o perigo, enfezaram seus arcos, prontos para o ataque, e a força da mãe natureza incorporou aqueles homens. Diante do cenário, os homens brancos esperavam a rendição dos guerreiros, porém foram surpreendidos com a força daquele povo. Como explicar a força de um povo forjado na dor? Tenho absoluta certeza de que meras palavras não respondem tal indagação. 


A resistência dos guerreiros causou estranheza nos homens caras pálidas, pois eles estavam acostumados a subjugar os povos com a simples prepotência de seu olhar.


A batalha foi sangrenta e os homens pálidos fugiram derrotados, mas infelizmente alguns guerreiros perderam suas vidas, inclusive Antã, o pai de Amanara. No meio do alvoroço Amanara e sua mãe fugiram para se esconder na floresta. Quando o sol raiou ambas correram para a aldeia, e o que encontraram foi uma devastação. Caminhando em meio aquele caos, ao longe, elas avistaram uma imagem conhecida: era Antã, caído, já sem vida coberto de sangue. O desespero tomou conta do ambiente; por todos os lados, os corpos de animais e alguns homens, deixava evidente a crueldade daqueles homens pálidos. Diante do corpo do pai, Amanara ficou em estado de choque, mas sua mãe correu ao encontro de Antã. O lamento da tribo ecoou pela floresta, espantando os pássaros das árvores. O grito de dor deu lugar às lágrimas, que molhavam o chão preto da terra que antes tanta alegria testemunhou. Com aquela terra as mulheres pintaram os seus rostos e com uma pedra polida cortaram os seus cabelos.


No meio dos destroços Amanara encontrou a urna de barro que, com tanto carinho ela tinha construído e finalmente entendeu que ali seria o local, onde seu pai começaria a sua jornada rumo a Yvy Marãe’y (a “Terra sem Males”).


Seguido por um cortejo de choro e dança, o pajé da tribo deu início aos rituais de passagem, daqueles bravos guerreiros, cujos ossos foram colocados em urnas, mas cuja história jamais será silenciada.



*Atacília Costa Reis tem 26 anos e é estudante do curso de Letras – Língua Portuguesa. Gosta de leitura e atualmente começou a se dedicar à escrita. Busca ampliar seus conhecimentos na área da literatura e da linguagem. Seu objetivo é concluir a graduação e continuar escrevendo cada vez mais.”

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