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Memória de um lampejar | Vanuely Batista*

  • Foto do escritor: Silvio Carneiro
    Silvio Carneiro
  • há 11 horas
  • 2 min de leitura

 

Urna funerária antropomorfa. Acervo do Museu Nacional/UFRJ, Rio de Janeiro-RJ
Urna funerária antropomorfa. Acervo do Museu Nacional/UFRJ, Rio de Janeiro-RJ

Antes se via uma ou outra urna,

Antes vivíamos em paz,

Antes adorávamos nossos deuses

E a natureza era o nosso lar.

Mas tudo se dissipou quando os vimos,

Barco a velas, caravelas em alto mar,

Dali vinha o mal presságio,

Que um dia ia nos dizimar.

Nas histórias que os mais velhos contavam,

Dizia-se que um dia vocês iam chegar,

mudando nossas vidas,

Para nos amaldiçoar.

E assim aconteceu,

Mais urnas apareceram

e meu povo é quem sofrera,

Com a vinda de homem branco em alto mar.

As trevas molharam o campo de sangue avermelhar,

E as cruzes ao longe se via,

Ouvíamos ave Marias,

Para os demônios  expulsar.

Um ou outro dali sai,

Mas nem todos saiam de lá,

Pois quando dali sai,

Sai na urna de lá

E as tradições que existiam,

se apagaram com o lampejar.

Lampejar de relâmpago

ou das armas de homem branco?

Sei lá!

Sei apenas que mais um de nós está ao solo a se rastejar.

Atingido pelo tiro,

Ou pelas doenças que vinham de lá,

Não temos mais homens vivos,

Entregamos as almas de nossos filhos

ao homem branco que está a rezar.

Nas urnas estão nossos corpos,

Só nos restam nossos ossos,

Para a terra alimentar,

E nas urnas vão nossa história,

Pois não tivemos glória,

De viver em nosso lar.

As urnas vão contar um dia,

A grande covardia,

Que nos fizeram passar.

Mas nelas não estará apenas a história,

Estará nossa memória,

Que um dia ão de encontrar,

Tentando reescrever a história,

da derrota de uma guerra que não quisemos enfrentar.

Éramos milhões,

Hoje já não se sabe quem são

ou se ainda resta alguém lá,

Será que a nossa história morreu

ou apenas sobreviveu com as urnas a vagar?

As urnas que encontraram,

Aqui, ali e acolá,

Mostra o passado que vivemos,

Como nossos corpos sofreram

E quem passou por lá.

Cada traço que está na urna,

Conta quem foi a alma a vagar,

Vagar pelas terras

que eram livres para se desfrutar.

Nós tínhamos hierarquia,

Respeitávamos a melodia

que a natureza vinha nos proporcionar.



*Vanuely Batista da Silva, nascida em 27/12/1985, é professora e escreve histórias infantis desde os 8 anos e na adolescência passou a escrever letras de músicas e poesias. Atualmente é estudante de Letras Espanhol e pós-graduanda no curso de Metodologias de Ensino com ênfase na Deficiência Visual.


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