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Poemas | Ana Camilly Garcia*

  • Foto do escritor: Silvio Carneiro
    Silvio Carneiro
  • há 3 horas
  • 3 min de leitura
Créditos da imagem: Aerial view of the Amazon Rainforest. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Aerial_view_of_the_Amazon_Rainforest.jpg
Créditos da imagem: Aerial view of the Amazon Rainforest. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Aerial_view_of_the_Amazon_Rainforest.jpg

Pindorama


De longe os observei chegando,

Em suas estruturas de madeiras

Gente pálida, cobertos de pano

Cobrindo suas partes...


Por que estão envergonhados?

Quando desceram, não sentiram vergonha...

Maldito kari, o que queres aqui?


Cacique foi até eles, cobriram-no o Tacoaýa

Nos mostraram objetos, um que reflete a cara e o outro uma cuia cor de pedra

O que querem com isso?

Querem pedras em trocas?

Kari tolo, akangaima 

De onde vieram não há rochas?


Nos encaravam como se fôssemos selvagens,

Os selvagens são vocês!

Que invadiram nossa morada!

Mas o que querem, kari tolos?

Logo hoje que perdi a mulher que me deu a vida,

Sua despedida foi ao raiar do sol,

Minhas mãos, daqui estão encardidas

Do barro que usei pra fazer sua urna

Urna bonita, com grafismos

Fiz representando a mãe d'água

Com grafismos que de minha mãe contam a história


De barro fiz uma pedra, onde mãe d'água ficaria sentada

Fiz corpo longo, dedos finos

Pés pequenos, pernas compridas

Braços pequenos...

Pois mãe d'água tem nadadeiras

Fiz a cabeça, com olhos grandes

Nariz pequeno e boca fina

Em seu corpo de barro desenhei a história de mamãe,

Linhas curvas, ondulares, que revelam o rio em que nasceu

Curvaturas, logo abaixo, que indica quanto tempo viveu

Linhas retas, com repetições...

Os lugares por onde andou

Variações de retas, em zig-zag, as terras por onde morou

Fiz suas partes de kunhã, de barro fiz sua acaiâ 

Representando sua fertilidade

Ela era uma kunhã-porang-a

Era linda de verdade


Quando passar o tempo a colocarei aqui e daqui pra terra voltará

De barro foi feito e para terra irá voltar...

Mas o que querem malditos kari ?

Vieram nos destruir?

Não queremos sua comida, não queremos sua investida

Não queremos suas cuias de pedra, não queremos suas vestes e cobertas


Malditos kari, o que querem aqui?

Nós falamos, eles gritam

Que língua estranha é essa?

Nós falamos, eles escrevem com uma memória curta dessas?


Não descobriram Pindorama

Ela já estava aqui quando nasci

Não adianta de nada

Podem escrever

Mas a história do meu povo nunca poderão dizer



Antes do Brasil


Se os homens brancos atracassem nos povos vizinhos

Sua sorte não seria a mesma

Se mostram fortes e valentes

Se atracassem mais pra lá

Antes do sol raiar

Teriam virado jantar


Homens brancos

Que com sua pele pálida

Nunca viram um Urucum

Suas cabeças nunca sentiram um cocar

Nunca abraçaram a natureza

Nossa terra é uma fortaleza

Homem branco não sabe dançar

Não sabe beber

O que fazem pra festejar?


Agora vem com esse papo que querem nos evangelizar

Homem branco, já tenho minha fé

Não consegues ver?

Você pisa em meus descendentes

Banha em meus companheiros

Come de meus compadres

Nossa terra é sagrada

Não nos transforme em homem branco



Brasil


Já não lembro minha idade

Acho que perdi minha identidade

Minha religião agora é a deles

Meus filhos são com eles

Nosso Tupã agora é Deus

Não nos casar é pecado

Nossas urnas são cemitérios

Seus barcos nos levam daqui

Não falamos mais tupi

Minha morada é hostil

Minha língua agora é a portuguesa

E minha terra se chama Brasil....



Glossário:

Kari – homem branco

Tacoaýa - parte íntima masculina

Akangaima – sem cabeça, idiota, tolo

Kunhã – mulher

Acaiâ – parte íntima feminina (mas também se refere a fruta cajá)

kunhã-porang-a – Mulher bonita



*Ana Camilly Garcia de Sousa cursa Licenciatura em Letras - Língua Portuguesa na Universidade do Estado do Amapá (UEAP). Pesquisadora em formação, foca seus estudos na produção textual, na criação poética e na escrita literária do cotidiano. Investiga também práticas de ensino de língua e literatura, buscando promover e valorizar a escrita criativa na educação.

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