Poemas | Ana Camilly Garcia*
- Silvio Carneiro
- há 3 horas
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Pindorama
De longe os observei chegando,
Em suas estruturas de madeiras
Gente pálida, cobertos de pano
Cobrindo suas partes...
Por que estão envergonhados?
Quando desceram, não sentiram vergonha...
Maldito kari, o que queres aqui?
Cacique foi até eles, cobriram-no o Tacoaýa
Nos mostraram objetos, um que reflete a cara e o outro uma cuia cor de pedra
O que querem com isso?
Querem pedras em trocas?
Kari tolo, akangaima
De onde vieram não há rochas?
Nos encaravam como se fôssemos selvagens,
Os selvagens são vocês!
Que invadiram nossa morada!
Mas o que querem, kari tolos?
Logo hoje que perdi a mulher que me deu a vida,
Sua despedida foi ao raiar do sol,
Minhas mãos, daqui estão encardidas
Do barro que usei pra fazer sua urna
Urna bonita, com grafismos
Fiz representando a mãe d'água
Com grafismos que de minha mãe contam a história
De barro fiz uma pedra, onde mãe d'água ficaria sentada
Fiz corpo longo, dedos finos
Pés pequenos, pernas compridas
Braços pequenos...
Pois mãe d'água tem nadadeiras
Fiz a cabeça, com olhos grandes
Nariz pequeno e boca fina
Em seu corpo de barro desenhei a história de mamãe,
Linhas curvas, ondulares, que revelam o rio em que nasceu
Curvaturas, logo abaixo, que indica quanto tempo viveu
Linhas retas, com repetições...
Os lugares por onde andou
Variações de retas, em zig-zag, as terras por onde morou
Fiz suas partes de kunhã, de barro fiz sua acaiâ
Representando sua fertilidade
Ela era uma kunhã-porang-a
Era linda de verdade
Quando passar o tempo a colocarei aqui e daqui pra terra voltará
De barro foi feito e para terra irá voltar...
Mas o que querem malditos kari ?
Vieram nos destruir?
Não queremos sua comida, não queremos sua investida
Não queremos suas cuias de pedra, não queremos suas vestes e cobertas
Malditos kari, o que querem aqui?
Nós falamos, eles gritam
Que língua estranha é essa?
Nós falamos, eles escrevem com uma memória curta dessas?
Não descobriram Pindorama
Ela já estava aqui quando nasci
Não adianta de nada
Podem escrever
Mas a história do meu povo nunca poderão dizer
Antes do Brasil
Se os homens brancos atracassem nos povos vizinhos
Sua sorte não seria a mesma
Se mostram fortes e valentes
Se atracassem mais pra lá
Antes do sol raiar
Teriam virado jantar
Homens brancos
Que com sua pele pálida
Nunca viram um Urucum
Suas cabeças nunca sentiram um cocar
Nunca abraçaram a natureza
Nossa terra é uma fortaleza
Homem branco não sabe dançar
Não sabe beber
O que fazem pra festejar?
Agora vem com esse papo que querem nos evangelizar
Homem branco, já tenho minha fé
Não consegues ver?
Você pisa em meus descendentes
Banha em meus companheiros
Come de meus compadres
Nossa terra é sagrada
Não nos transforme em homem branco
Brasil
Já não lembro minha idade
Acho que perdi minha identidade
Minha religião agora é a deles
Meus filhos são com eles
Nosso Tupã agora é Deus
Não nos casar é pecado
Nossas urnas são cemitérios
Seus barcos nos levam daqui
Não falamos mais tupi
Minha morada é hostil
Minha língua agora é a portuguesa
E minha terra se chama Brasil....
Glossário:
Kari – homem branco
Tacoaýa - parte íntima masculina
Akangaima – sem cabeça, idiota, tolo
Kunhã – mulher
Acaiâ – parte íntima feminina (mas também se refere a fruta cajá)
kunhã-porang-a – Mulher bonita
*Ana Camilly Garcia de Sousa cursa Licenciatura em Letras - Língua Portuguesa na Universidade do Estado do Amapá (UEAP). Pesquisadora em formação, foca seus estudos na produção textual, na criação poética e na escrita literária do cotidiano. Investiga também práticas de ensino de língua e literatura, buscando promover e valorizar a escrita criativa na educação.




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