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A Era de Ouro da Literatura Amapaense e o Fim dos Feudos Literários

  • Foto do escritor: Silvio Carneiro
    Silvio Carneiro
  • há 24 horas
  • 3 min de leitura

  


Em seu primeiro livro de crônicas, “Telas e Quintais” (1986), nosso saudoso Fernando Canto foi cirúrgico ao analisar “A questão da literatura amapaense”. Dizia o mestre:

 

Ainda hoje a “literatura amapaense” vive um período de narcose ou letargia, numa profunda sonolência, causada pela carraspana do egoísmo, da pseudo-intelectualidade e da megalomania, aliados à falta de talento e à mediocridade. (…) Temos exemplos amargos, extremamente angustiantes, de pessoas que, por motivos óbvios, preferiram tentar mostrar seu talento em centros maiores, lutando para conseguir um lugar ao sol e ganhar um nome merecedor de respeito na difícil arte de escrever, no difícil trabalho de falar sério, de inventar sério e de criar com seriedade, para obter respeito. (…) Salvo raríssimas exceções, a criação literária amapaense possui uma minguada expressão. (…) Este, portanto, é o estado em que vive a nossa literatura. Um estado vicioso de falta de talento. Uma situação onde os que possuem um pouco do talento desejado omitem-se, não escrevem sério e estagnam sua criação por falta de seriedade, bom senso, coerência e principalmente pela ausência de uma metodologia de trabalho, que pode facilitar quem quer que seja ou se julgue um escritor comprometido com uma literatura regional ou, mesmo especificamente, amapaense.

 

Isso acontecia lá nos longínquos anos da década de 1980. Mas, de certa forma, ainda hoje podemos sentir as consequências desse amadorismo e dessa falta de comprometimento denunciados por Fernando.


Por muito tempo, a cultura literária no Amapá esteve presa em “feudos invisíveis” e “clubes fechados”, onde a aprovação de poucos importava mais que a qualidade da obra ou o alcance do leitor. Porém, essa realidade vem mudando e a literatura produzida no Amapá vem deixando de ser um hobby restrito e tem se tornado em algo melhor.


Ao nos deixar todos órfãos em 2024, Fernando, até certo ponto, parecia estar feliz com o despertar dos escritores amapaenses da nova geração. Muitos autores estão começando a finalmente entender que não precisam de intermediários, de “permissões” ou de apadrinhamento para brilhar, pois já são donos de suas próprias carreiras.


Esse movimento independente, organizado pela Setorial do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas tem gerado uma explosão de publicações inéditas, pluralidade de vozes e o fim do monopólio da narrativa por grupos isolados. O talento agora fala mais alto que a politicagem.


E a materialização dessa nova era vem se dando através das parcerias e do profissionalismo. Temos um governo que não se esconde em gabinetes e que traz a cultura para o âmbito das políticas públicas de Estado. Temos inúmeros eventos, iniciativas genuinamente coletivas e a construção de parcerias com o setor público e privado que vêm gerando bons frutos, fazendo os livros circularem e chegarem aos 16 municípios.


Enquanto até bem pouco tempo atrás discutiam-se vaidades em reuniões fechadas, hoje o mercado local já começa a discutir tiragens, contratos, expansão de público e formação de cidadãos melhores.


E é nesse cenário, para esses escritores, que a Editora O Zezeu se posiciona.


A única editora comercial e profissional do Amapá (até o momento), nasceu para atuar como braço logístico e comercial dessa revolução. Nosso trabalho proporciona uma estrutura em que os autores não precisem mais mendigar espaços. Com a marca de mais de 100 títulos já publicados ou em processo de publicação em apenas dois anos de atividade, não estamos falando de vaidade, estamos dando uma prova material de que o Amapá lê seus próprios autores.


E não temos interesse nenhum em monopólio. Acreditamos firmemente que a competição honesta é extremamente saudável para a profissionalização do mercado. Que surjam novas editoras que, como O Zezeu, sejam genuinamente amapaenses e que tenham um olhar de familiaridade e pertencimento à sua terra e sua gente. A literatura profissional não tem espaço para aventureiros. O mercado editorial do Amapá não tem mais espaço para retrocessos, panelinhas ou amadorismo. O trem do profissionalismo já começou e está em alta velocidade.


Longa vida aos autores que estão focados em construir obras consistentes, pois a literatura brasileira produzida no Amapá agora pertence aos leitores, e a mais ninguém.

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