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Gatos por lebres

  • Foto do escritor: Silvio Carneiro
    Silvio Carneiro
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

O mercado editorial é, frequentemente, vítima de uma esquizofrenia romântica. De um lado, temos a aura intocável do "escritor", o artesão das ideias; do outro, a engrenagem pesada, suja de tinta e movida a planilhas financeiras, que transforma essas ideias em um produto físico de 300 páginas. Quando esses dois mundos colidem sem o devido preparo, o resultado costuma ser um choque de egos e um festival de desinformação.


É exatamente esse choque que vem acontecendo pelos "corredores culturais" de Macapá desde agosto de 2024, quando a Editora O Zezeu abriu suas portas.


Sendo, até hoje, a única casa editorial comercial e profissional do Amapá — com a marca de quase 100 títulos inéditos já lançados —, a O Zezeu optou por navegar no modelo da autopublicação. Não por um fetiche comercial, mas por uma leitura pragmática do mercado local: o autor amapaense, historicamente isolado dos grandes eixos editoriais, acostumou-se a manter o controle absoluto de sua produção.


O problema é que, durante décadas, "controle absoluto" foi sinônimo de um amadorismo doído. Falamos de livros impressos em gráficas rápidas (daquelas que rodam panfletos de supermercado de manhã e poesia à tarde), sem nenhum trabalho de edição. Textos não revisados, capas diagramadas com imagens roubadas do Google (num desrespeito flagrante aos direitos autorais) e, mais recentemente, o uso silencioso e rasteiro de Inteligências Artificiais. E sejamos claros: o problema não é o uso de IA, que é uma ferramente extremamente útil se bem utilizada, mas a leviandade de quem delega à máquina o que deveria ser suor intelectual.


Aí entram em cena os fundadores da O Zezeu, a escritora Lulih Rojanski e eu, Silvio Carneiro, os "tubarões do mercado editorial amapaense". Nós cometemos o maior "pecado" que podíamos cometer em um mercado acostumado com a mediocridade: exigimos excelência.


A O Zezeu se recusa a ser uma "gráfica de luxo" ou uma dessas editoras caça-níqueis que publicam qualquer amontoado de palavras desde que o pagamento seja processado. Fazemos curadoria. Não temos medo de dizer "seu material não está pronto para ser publicado". E no mercado literário, não há nada mais ofensivo do que um "não". São dos egos feridos por essa barreira de qualidade que surgem os burburinhos e as perguntas invejosas de bastidores: "A O Zezeu não é careira demais?"


Para responder a isso, precisamos tirar o debate da mesa de bar e colocá-lo na calculadora. Vamos à anatomia de um livro.


Imagine um autor independente que tem seu projeto aprovado pela O Zezeu. O orçamento para 100 exemplares de um livro padrão (formato 14x21cm, miolo em Pólen Natural 80g/m² — o papel que não cansa a vista e que inflacionou perigosamente no mercado global —, capa em cartão triplex 300g/m² com orelhas de 7cm e laminação fosca) bate na casa dos R$ 1.500,00 apenas para os custos gráficos. Papel, tinta, cola e frete.


Mas a impressão é apenas a ponta do iceberg. Antes de a máquina rodar, a editora pega aquele arquivo bruto e aplica o verdadeiro trabalho editorial: leitura crítica, revisão ortográfica e gramatical profunda, copidesque (para salvar o texto de suas próprias armadilhas), projeto de miolo e capa, obtenção de ISBN, ficha catalográfica e envio do boneco (a prova de impressão). Digamos que todo esse serviço profissional custa outros R$ 1.500,00 .

O autor, então, desembolsa R$ 3.000,00 . Ele recebe os 100 livros prontos, impecáveis, na porta de casa. Vende a R$ 40 cada, fatura R$ 4.000,00, cobre os custos e entende que é um autor-empreendedor. Mas, embriagado por lendas da internet, esse mesmo autor acha "caro" e decide procurar uma daquelas editoras de fóruns que prometem "publicação tradicional custo zero".


E é aqui que o mercado vende gato por lebre .


O autor envia o original. Meses de silêncio fantasmagórico. Finalmente chega o e-mail: "Parabéns, fomos cativados pela sua obra e vamos bancar tudo!" . O autor comemorativo, assina o contrato embriagado pela vaidade e não lê as letras miúdas. E as letras miúdas no mercado editorial são impiedosas.


Lá no fundo do contrato, há uma cláusula de coobrigação para o evento de lançamento. A editora "não cobra", mas o autor é obrigado a garantir a venda de até 50 exemplares na noite de autógrafos. Se não vender, ele tem que comprar. Para "facilitar", a editora manda os livros e um QR-Code do PIX. Todo o dinheiro vai direto para a caixa da empresa.


Faça as contas: 50 exemplares a R$ 60,00 cada. O autor acabou de pagar os mesmos R$ 3.000,00.


A diferença? No modelo de falsa publicação tradicional, o autor não tem o controle da tiragem, frequentemente recebe um livro com edição massificada e sem esmero crítico, e trabalha como vendedor não remunerado para dar lucro à editora. Fica sem os livros, sem os direitos e com a conta bancária vazia.


O que O Zezeu está fazendo no Amapá não está inflacionando o mercado; está ensinando a fazer contas. Profissionalizar uma cadeia produtiva custa dinheiro porque envolve profissionais reais, não atalhos. Chamar a O Zezeu de cara é, no fundo, uma confissão de que se prefere a ilusão do amadorismo barato ao peso real de se fazer literatura de verdade.

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