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Quando o autor é a sua pior ficção

Foto do escritor: Silvio Carneiro
Silvio Carneiro
há 5 horas
3 min de leitura

Na era das editoras caça-níqueis e da inteligência artificial, uma praga assola o mercado editorial: o pseudo-escritor que desiste de criar boas histórias para inventar a própria biografia.


Quem conhece o mercado editorial sabe que um livro nasce na solidão do pensamento de um autor, mas só sobrevive se aprender a galgar uma cadeia produtiva implacável: os custos da publicação, as comissões das distribuidoras, a guerra por um centímetro de prateleira de vitrine das grandes livrarias, os bastidores das feiras literárias. Em um ecossistema que dispara milhares de novos ISBNs todos os meses, o silêncio é a regra, enquanto o sucesso é apenas um desvio estatístico.


Diante dessa montanha-russa, o que faz um aspirante a escritor desprovido de talento e sobra de ego? Ele joga a literatura para segundo plano e foca no marketing. O problema é que não se faz marketing com mentiras. Aliás, propaganda enganosa é crime.


Mas uma mentirinha boba aqui e ali não é nada demais — pensam alguns.


Há um submundo muito lucrativo no mercado editorial que não vive da venda de livros para leitores, mas da venda de ilusões para autores. É o caso das editoras caça-níqueis. Eles não selecionam originais, escolhem os cartões de crédito que vão pagar a conta. Abrem "vagas" em antologias ridículas, sem nenhum trabalho de curadoria literária; promete participação em feiras com estandes escondidos e chancelam selos fantasmagóricos que só publicam mais do mesmo. E é nesse pântano que proliferam os "ilustres desconhecidos" ostentando medalhas de lata, comprando cadeiras em "Academias" de Letras que têm a mesma relevância de um clube de baralho e exibindo diplomas "honoris causa" de papel sulfite no Instagram.


Até bem pouco tempo atrás, isso era apenas patético. Dava trabalho escrever um livro ruim. Hoje, com as inteligências artificiais generativas, a mediocridade ganhou escala industrial. Tem uma empresa no Instagram que promete te entregar um livro inédito sobre qualquer assunto em 30 minutos.


A realidade do ofício editorial, com cada vez mais frequência, nos joga no colo manuscritos que são verdadeiras coleções de horrores: estruturas frasais robóticas, sintaxe pasteurizada, todos os cacoetes e alucinações de um ChatGPT mal calibrado. E quando esse tipo de “autor” é confrontado e orientado a lapidar sua escrita, a vaidade fala mais alto. Em vez de um trabalho duro, ele encontra rapidamente uma dessas editoras-gráficas disposta a embalar sua farsa mediante o pagamento de um belo boleto.


É aí que começa a verdadeira "obra": a ficção de si mesmo.


Com o livro impresso em mãos, aciona-se uma máquina de delírios. Currículos são inflados com prêmios literários imaginários, autoproclamações de genialidade e supostas adoções de seus livros em currículos escolares pelo mundo afora. E aqui entra a tragédia do nosso jornalismo letárgico: a imprensa local, muitas vezes refém da cultura do “copia e cola”, engole e publica esses comunicados mentirosos sem pestanejar. Manchetes celebram gênios incompreendidos com base unicamente no que o próprio autor mandou dizer. Falta a esses profissionais a única coisa que separa um jornalista de um assessor de imprensa: a verificação básica dos fatos.


O Norte do Brasil abriga gigantes de nossa literatura e vozes autênticas que merecem o espaço hoje poluído por delírios artificiais. Dois exemplos bastam aqui: Milton Hatoum e Odenildo Sena, que figuram na lista dos semifinalistas do Jabuti 2026, divulgada ontem, representando o melhor da literatura produzida na Amazônia contemporânea. Em um mercado disputado a tapas, onde editoras independentes garimpam talentos reais e livreiros suam a camisa para fechar as contas vendendo literatura genuína, a existência de parasitas vaidosos ofende não apenas a estética, mas a ética do ofício. Isso faz com que aqueles que realmente fazem coisas de valor sejam invisibilizados.


O livro sempre será um artefato mágico, mesmo quando se trata de um produto comercial. Mas quando a capa serve apenas para encobrir as mentiras de quem o assina, ele deixa de ser literatura. Torna-se apenas um atestado de falsidade ideológica com orelhas e ficha catalográfica. E nós, que vivemos esse mercado e respeitamos a palavra escrita, temos a obrigação moral de apontar o dedo e dizer, em alto e bom som: o rei está nu. E seu livro é péssimo!

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