Como a erudição pavimenta o fim da democracia a partir da literatura

Existe um mito reconfortante e perigosamente ingênuo no qual as pessoas do campo progressista acreditam: a ideia de que a leitura, por si só, é o antídoto contra o fascismo. Nós nos apegamos à fantasia de que o autoritarismo é um subproduto exclusivo da ignorância e de que basta entregar um livro a um extremista para que ele, subitamente iluminado, abandone seu radicalismo.
Mas a História, sempre cruel com os otimistas, nos lembra de um detalhe incômodo: a barbarie frequentemente possui uma excelente gramática.
A grande perplexidade do nosso tempo não é o homem que grita na porta de um quartel; é o homem que, cercado por uma biblioteca invejável, com diplomas na parede e uma retórica sofisticada, senta-se ao teclado para fornecer a base teórica para quem está na chuva pedindo golpe de Estado.
Para entender como chegamos a esse abismo moral, é preciso olhar para o arquiteto dessa tristeza intelectual: Olavo de Carvalho. Eis o patrono da barbárie letrada. Um pseudofilósofo, ex-astrólogo, que jamais conseguiu submeter suas teses ao rigor do método científico e da revisão por pares no meio acadêmico legítimo. Rejeitado pela academia formal, Olavo transformou seu ressentimento em um método.Ele não criou apenas uma obra; ele fundou um ecossistema de paranóia, um "universo paralelo" onde a falta de reconhecimento acadêmico era vendida aos seus seguidores não como um atestado de mediocridade, mas como prova de que ele era um gênio boicotado pelo "marxismo cultural".
Olavo ensinou a uma geração inteira de aspirantes a intelectuais que uma leitura não serve para expandir a empatia ou compreender a complexidade humana. Para o olavismo, a cultura é um arsenal. Lê-se Platão, Aristóteles e Edmund Burke não para questionar o mundo, mas para cegar preconceitos com um verniz de erudição, esmagando adversários sob o peso de importações latinas descontextualizadas.
Sob a sombra de Olavo, proliferaram os herdeiros dessa tradição cínica. Hoje, vemos um exército de escritores, juristas de fachada, colunistas autoexilados em Miami e historiadores autoproclamados que operam na mesma frequência. São homens e mulheres que assinam best-sellers e colunas de jornal utilizando a cultura como arma de intimidação.
O truque retórico mais perverso dessa elite letrada — a espinha dorsal de sua produção escrita atual — é uma tese de que o Brasil já não é mais uma democracia.
Eles torcem o tecido da realidade com a habilidade de sofistas profissionais. Ao classificar os freios e contrapesos institucionais (em especial as ações do Supremo Tribunal Federal contra golpistas) como uma "ditadura da toga", ou ao enquadrar a proteção de crimes contra o Estado Democrático de Direito como "censura", esses escritores operam uma inversão de valores assustadora. Eles sequestraram o vocabulário da liberdade para defender a tirania.
E por que um escritor brasileiro — alguém cuja própria matéria-prima, a palavra, depende vitalmente das garantias democráticas para circular — abraça os argumentos da extrema direita?
Primeiro, pelo narcisismo de se sentir parte de uma vanguarda iluminada que "enxerga o que a massa anestesiada não vê". Em segundo lugar, por um elitismo profundo disfarçado de populismo. Eles sentem-se ojerizados pelos pactos de tolerância que uma democracia real exige. O escritor extremista, seja o guru da Virgínia ou seus filhotes que hoje dominam os algoritmos de autopublicação na Amazon, detesta a pluralidade ruidosa do Brasil contemporâneo. Ele sonha com uma ordem mítica, higienizada, pautada por uma moralidade monolítica e imposta de cima para baixo.
O colapso de um regime democrático raramente começa com tanques na rua; ele começa com a corrosão da linguagem, da narrativa e a destruição da verdade compartilhada. As turbas que depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília não agiram por uma epifania cívica. Para que um cidadão comum se sinta moralmente justificado a atirar uma pedra na vidraça do Congresso ou a pedir intervenção militar, ele precisa de um álibi intelectual.
É esse o papel do escritor da extrema direita. Ele é o fornecedor do álibi. Ele entrega a moldura filosófica, o artigo de opinião elegante, o livro de duzentas páginas que transforma um crime contra as instituições em uma "cruzada patriótica pela liberdade". Ele pega a pulsão destrutiva e irracional do extremismo e a veste com um terno sob medida, dando-lhe respeitabilidade para circulares em jantares da alta sociedade, podcasts de grande audiência e nos corredores do Congresso Nacional.
A pior espécie de inimigo da democracia não é o ignorante que desconhece como as instituições funcionam. É o homem letrado que entende perfeitamente as engrenagens da república e usa todo o seu intelecto para jogar areia no motor. Ao legitimar a ruptura sob a farsa de "proteger a liberdade", esses herdeiros do olavismo não estão apenas exercendo um direito de opinião; eles estão redigindo, com esmero ortográfico e restrições clássicas, o atestado de óbito do próprio país.




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