A Sobrevivência do Escritor e as Eleições de 2026

Para você, que banca seu próprio livro luta para furar a bolha do algoritmo das redes sociais, a política em Brasília parece distante. Mas não é. A eleição de 2026 entre os projetos de Lula e Flávio Bolsonaro bate diretamente na sua tela, no seu custo de produção e na forma como você encontra seus leitores.
Como alguém que acompanha os bastidores desse mercado já há alguns anos, preciso te dizer: Historicamente, os governos petistas e o governo Bolsonaro operaram com filosofias diametralmente opostas sobre o que é a arte, e cada uma dessas visões afetava o escritor independente de maneiras muito distintas.
O Histórico e o Modelo Lula: O Estado como Fiador da Arte
Se olharmos para o retrovisor, é inegável que a estruturação de políticas públicas de cultura no Brasil tem a digital dos governos de centro-esquerda, com a consolidação do Ministério da Cultura, descentralização de verbas e a criação de redes de editais.
Para o escritor independente, o modelo histórico de Lula representa a existência de uma rede de segurança. Leis de fomento direto (como o legado de Aldir Blanc e Paulo Gustavo) e editais municipais e estaduais com verba federal significam que você pode escrever um livro de contos experimentais ou poesia regional — gêneros que o mercado comercial costuma ignorar — e conseguir financiamento para pagar uma boa revisão, diagramação e impressão. O Estado atua para corrigir falhas do mercado, garantindo bibliodiversidade.
Claro que o fomento estatal exige do escritor a habilidade de lidar com trâmites burocráticos. Ainda assim, para muitos, isso representa uma luz no fim do túnel.
O Modelo Bolsonarista: A arte e a cultura em segundo plano
A história do governo Jair Bolsonaro (cuja política de base sustenta Flávio Bolsonaro) foi marcada por uma forte retração do papel do Estado como mecenas, desmantelamento do Ministério da Cultura e uma visão declaradamente hostil aos mecanismos tradicionais de incentivo (como a Lei Rouanet). A aposta era no mercado livre.
Se você é um autor independente focado exclusivamente em plataformas como a Amazon e nas vendas tracionadas pelo BookTok, o fomento do Estado é irrelevante para você. Seu jogo é a conversão direta. Nesse cenário, você pode até pensar que o modelo econômico liberal acenado pela direita é mais vantajoso. A promessa é desburocratizar a abertura de pequenas empresas (sua MEI, por exemplo) e reduzir impostos em operações digitais e de logística. Nesse modelo, o dinheiro sairia do imposto e ficaria no seu bolso para investir em tráfego pago. Olha que maravilha! Só que não...
Sem as políticas públicas de incentivo, a cultura é reduzida simplesmente ao que é comercialmente viável. Se sua literatura não tiver apelo de massa imediatamente, ou se você precisar de tempo e pesquisa para escrever, o mercado não terá pena de você. O algoritmo das big techs passa a ser seu único "Ministro da Cultura", e só ganha quem produz em escala industrial.
O Veredito
Quando colocamos os dois cenários na mesa para 2026, uma análise rigorosa do mercado mostra que a escolha não é difícil.
Historicamente, o setor cultural como um todo, incluindo agentes, associações e grandes feiras, encontra muito mais interlocução, previsibilidade de diálogo e volume de investimento direto sob o modelo de governos como o de Lula. Prêmios, circulação em bibliotecas públicas, festivais literários e publicação de obras de alto valor literário têm infinitamente mais possibilidades de sobreviver, uma vez que a manutenção de um Estado indutor forte é fundamental para que sua voz não seja apagada pelo barulho do varejo.
Por outro lado, o autor de autoajuda e os coaches de empreendedorismo — os picaretas digitais que vivem de escrever livros com o Chat GPT — só querem saber de fazer grana, vendendo para aquele tipo de leitor que se define como "liberal conservador" e que odeia a "cultura inútil" da ficção e da poesia. Para esses "escritores", que se contentam em vender seus e-books na Amazon e focar nas métricas, o modelo "desregulado" é o mais vantajoso — já que ele vem acompanhado de uma pseudoeconomia estável e juros baixos que permitem ao leitor ter dinheiro para mudar para o Kindle Unlimited. Percebe o elitismo?
A verdade é que a sobrevivência do escritor independente, da cultura e da arte, depende sim de quem vai subir a rampa do Palácio do Planalto em 1° de janeiro de 2027. Acho que a escolha não é tão difícil...




"Que texto importante! Como escritora independente, reconheço o quanto essas políticas públicas são essenciais para todos nós.
A escolha é fácil, mas, o cenário é de psicose e variações da insanidade. Que a estrela da esperança possa brilhar!