O Fim de um Ciclo no Equador: A Fragilidade do Mercado Cultural e a Reconfiguração do Amapá

Quem conhece a cadeia produtiva da cultura sabe que um livro, um filme ou uma roda de Marabaixo não existe para o vazio. A arte pode ser sublime, mas o ecossistema que permite que ela chegue ao público é feito de planilhas, editais, rodadas de negociação e muita, muita vontade política. Ontem, quando as urnas falaram no Amapá neste primeiro turno de 2026, decretando a vitória de Antônio Furlan sobre o atual governador Clécio Luís, o que os fazedores de cultura sentiram não foi apenas a troca de uma faixa que se dará no próximo janeiro, mas o tremor (e temor do fim) de uma infraestrutura que estava fortalecida.
Para entender a compreensão que hoje domina a maioria dos artistas independentes e produtores culturais no Amapá — e digo a maioria porque sempre há os covardes dissimulados e medíocres —, é preciso olhar para os números e abandonar o romantismo de pensar que "a arte não é política". A gestão de Clécio, sem dúvida nenhuma, deu uma injeção de liquidez que o estado jamais viu. Estamos falando de mais de R$ 30 milhões operacionalizados via Lei Paulo Gustavo, além da estruturação da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
Para o mercado cultural, isso significou previsibilidade. Porque quando o Estado realiza buscas e escutas ativas do Oiapoque ao Vale do Jari para ensinar produtores a inscreverem projetos ou discutir as necessidades de artistas que sempre estiveram isolados e esquecidos nos nossos interiores, ele não está apenas fazendo "inclusão"; ele está formalizando uma cadeia produtiva até então invisível. É isso que permite que artistas, agências e produtoras possam planejar suas próximas ações sem o risco de falência. Com a transição para a gestão Furlan, a pergunta que fica é: Como um gestor populista e demagogo, que jamais valorizou a cultura local quando era prefeito de Macapá vai distribuir o fomento estrutural — que é repassado pelo Governo Federal __ sem fazer a menor questão de transparência? Não é preciso pensar muito. As políticas públicas serão substituídas, na cara dura, pela velha política de balcão — o financiamento apenas do evento efêmero em detrimento da formação de público e acervo.
O impacto dessa mudança de guarda estadual é agravado por uma segunda variável no tabuleiro político: a não reeleição do senador Randolfe Rodrigues, abrindo espaço para a manutenção de um senador com dinheiro na cueca e uma senadora despreparada que já demonstrou total desconhecimento de suas atribuições. Nos bastidores de Brasília, onde o orçamento secreto muitas vezes engole as pautas sensíveis, Randolfe operava como um agente ativo das políticas culturais amapaenses no Senado. Sua saída vai gerar uma escassez jamais vista no poder de barganha do estado na coleta de emendas parlamentares federais externas para o setor. Para obras do porte da restauração do Teatro das Bacabeiras ou para a manutenção de patrimônios imateriais como a Festa de São Tiago em Mazagão Velho, a perda de um interlocutor direto com o topo da pirâmide orçamentária federal é um golpe contábil severo. Para projetos culturais de longo prazo, sem uma voz que interceda pelo setor, a conta simplesmente não fecha.
E então olhamos para o precipício: a macroeconomia da política federal. O setor cultural brasileiro aguarda o segundo turno entre o presidente Lula e o meliante com a respiração suspensa, ciente de que a cultura está numa posição completamente vulnerável.
O mercado editorial e cultural funciona por espelhamento. Se o cenário nacional pender para o fascismo, a expectativa pragmática — baseada no histórico de sua matriz política — é de um enxugamento drástico do Ministério da Cultura ou mesmo de sua completa diluição. Sem um MinC forte para irrigar os estados via repasses fundo a fundo (como o Sistema Nacional de Cultura que o Amapá tentou consolidar), o recém-criado Sistema Estadual de Cultura, nas mãos de Furlan, levará seu golpe de misericórdia logo no primeiro ano. Por outro lado, se Lula se mantiver, o fomento federal continua, mas encontrará no Amapá uma administração que precisará provar se tem o interesse de manter a máquina de editais rodando, ou se deixará que a burocracia estrangule a execução orçamentária.
Otimistas dirão que a cultura não morre; ela se transmuta. Eu não sou otimista diante desse cenário que se desenha. Os tambores do Marabaixo vão continuar soando no Laguinho? Talvez. Ou pelo menos até voltarem a ser perseguidos "por ser coisa de preto", como nos tempos do Pe. Júlio — será que já não temos um "pastor Júlio" pregando isso por aí, em algum púlpito neo-pentecostal? — E as histórias, continuarão sendo escritas? Talvez. Ou pelo menos até serem cada vez mais censuradas em nome de Deus, da pátria e da família.
Mas uma coisa é certa: o mercado que transforma as expressões culturais em produto, livro impresso, curtas-metragens e circulação de renda corre o risco de entrar em um inverno rigoroso. O verdadeiro teste para o Amapá nos próximos anos não será a ausência de artistas, mas a sobrevivência de sua indústria ainda muito incipiente. E nesse mercado brutal de atenção e recursos, o talento sem financiamento é apenas um manuscrito engavetado à espera de um leilão que nunca acontece.




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