A literatura como acerto de contas: do extremo norte do Brasil, Luís Fulano de Tal desenterra os fantasmas de Brasília
- Silvio Carneiro
- há 2 dias
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Por Silvio Carneiro

Em 1995, o professor de escola pública Luiz Carlos Santana vivia um paradoxo. Apesar de vencer um prestigiado prêmio literário e receber a chancela de gigantes da intelectualidade como Alfredo Bosi e Pierre Verger, via que as portas do mercado editorial tradicional continuavam fechadas para ele. Foi da dura constatação de que, aos olhos da elite acadêmica e cultural, ele continuaria sendo um "cidadão de segunda categoria" que nasceu o seu pseudônimo e sua principal ferramenta de resistência política: Luís Fulano de Tal .
Abandonando a rigidez e os ritos do meio universitário em prol da liberdade literária, o autor construiu uma trajetória pautada pela recusa ao silenciamento e pela busca ativa de espaço para criar.
Agora, publicado pela editora amapaense O Zezeu, Luís Fulano de Tal lança O Túmulo do Candango Desconhecido . O livro é um mergulho contundente nas entranhas da construção da capital federal. A partir de testemunhos reais de trabalhadores que viveram a truculência da Guarda Especial de Brasília (GEB) em 1959, o autor desconstrói o ufanismo da "cidade do futuro" para dar rosto e humanidade aos brasileiros que ergueram o centro do poder com suor, sangue e desilusão.
Na entrevista a seguir, o escritor fala sobre racismo estrutural, o resgate de memórias apagadas pela história oficial, os desafios de produzir literatura no extremo norte do país e por que, segundo ele, o Brasil precisa urgentemente sentar na "divã social" da literatura para enfrentar os próprios traumas.

O Zezeu - Você nasceu Luiz Carlos Santana, mas assina como "Luís Fulano de Tal". Como esse pseudônimo nasceu e de que forma ele atua como uma ferramenta política e literária para dar voz àqueles que historicamente foram tratados como "fulanos" na sociedade brasileira?
Luís Fulano de Tal - O Luís Carlos de Santana é um professor de escola pública e com uma vida pacata e comezinha, e sem grandes lances espetaculares. Já Luís Fulano de Tal nasce de uma tomada de posição. Venci com o romance A Noite dos Cristais o Projeto Nascente de Literatura da USP em 1995. Mesmo tendo ganho o prêmio e com a assinatura da mais fina flor acadêmica da USP, eu não seria editado pela Editora da Universidade de S. Paulo. Foi então que vi que ser Luís Carlos de Santana, aluno e premiado pela própria universidade, eu continuaria a ser um não cidadão, ou um cidadão de segunda categoria, um descartável... daí... nasce o nome Luís Fulano de Tal.
OZ - Tendo se formado na USP, um dos maiores centros acadêmicos do país, como foi o processo de transpor o rigor da pesquisa formal para a narrativa ficcional que pauta sua obra literária?
LFT - Resolvi abandonar o estudo acadêmico ao final do mestrado. Eu queria escrever de forma literária, eu queria a criação. A universidade não contempla a criação, e um romance não vale um título acadêmico de mestrado ou doutorado. Sempre quis fazer criação. Já tem muita gente capacitada pelo Brasil afora para desenvolver trabalhos de mestrado ou doutorado. Justamente o que eu não queria fazer. Minha proposta sempre foi a criação. Não tive outra opção, terminei o mestrado, saí e comecei a escrever por conta própria. O ritual acadêmico da escrita, todo o rigor formal do trabalho científico, são incompatíveis com o texto literário, que nasce do caos e não tem um ritus de feitura.

OZ - Em seu livro mais conhecido, A Noite dos Cristais (1999), você aborda a Salvador do século XIX através de um menino negro nascido livre, mas escravizado. Mais de duas décadas após o lançamento, como você percebe a evolução (ou a estagnação) do debate sobre o racismo estrutural que a obra já denunciava?
LFT - As demandas sociais existem e o debate está colocado. Em 1995, quando surgiu o romance A Noite dos Cristais, a pauta era a criação de cotas nas universidades para a população negra do Brasil. Mesmo com a criação das cotas sociais, os avanços são tímidos, e as demandas por uma maior inserção da população negra na sociedade brasileira ainda são gigantescas. Continuamos a viver nas favelas, a ter subempregos e a sofrer com a violência policial, etc... etc... Há muito ainda por se conquistar. Como um todo, quem perde é o país. Mais de 50% da inteligência e da criatividade nacional é afro-indígena e mestiça, e não pode desenvolver plenamente a sua humanidade.

OZ - O Túmulo do Candango Desconhecido chega para desmistificar a narrativa ufanista da "cidade do futuro". O que o motivou a mergulhar nas entranhas da construção de Brasília e resgatar o sangue e o suor dos candangos neste momento específico?
LFT - A motivação foi dada a partir do momento em que conheci o fato histórico narrado por dois sujeitos que viveram aquela situação. Na verdade, o foco principal do texto não foi a construção da cidade de Brasília, que aparece aqui e ali. Penso que o principal foi tentar resgatar a vida daquelas pessoas antes de se tornarem candangos. Em comum, cada um dos dez relatos fala da infância sem escola, da exploração do trabalho, da opressão, do analfabetismo, do alcoolismo, do mandonismo e da falta de perspectiva de cada um dos entrevistados. Ao fim, ser candango em Brasília aparecia como uma grande oportunidade de vida. Brasília também não ofereceu um futuro para aquelas pessoas, haja vista que Brasília, hoje, a capital do país, é cercada por favelas como a Sol Nascente, Morro da Cruz e a 26 de Setembro. A "cidade do futuro", como a "terra das oportunidades e da cidadania" para os moradores habitantes não aconteceu.
OZ - A nova obra é descrita como um acerto de contas com o passado. Qual foi o maior desafio ético e literário ao transformar essas mortes silenciadas e excluídas da história oficial em material para a ficção?
LFT - O Brasil precisa ir ao divã. Precisamos olhar para o nosso passado, enfrentar nossos traumas e medos. Precisamos de mais teses de doutorado e dissertações de mestrado, discutir o nosso passado histórico e a nossa formação social. Precisamos de um espelho para vermos a nós mesmos. Então, escrever um romance é fazer um acerto de contas com o passado, é ir para um divã social. O desafio ético e literário foi o próprio fazer, a própria tessitura do texto. O grande prazer é saber que esta história comunga com as gentes do Brasil. Muitos brasileiros querem conhecer esta história. O desafio literário foi escrever de forma que o maior número possível de leitores se reconheça nesta história — enxergando ali a sua própria trajetória e o seu passado.

OZ - Nascido em Pernambuco, com passagem por São Paulo e hoje residindo no Oiapoque, você carrega uma vivência continental. De que maneira a vida na fronteira extrema do Amapá afeta o seu olhar sobre o Brasil central e influencia a escrita de um livro que critica a capital federal?
LFT - Foi uma escolha que fiz: escrever ou escrever. Profissão de fé, queimei meus navios e vim viver para escrever em Macapá e depois em Oiapoque. Como professor da rede pública de S. Paulo eu vivia diariamente em ônibus, trem, metrô, lotação ou carona de uma escola para outra. Sempre tive como proposta de vida escrever romances. Mas eu não tinha tempo. Em São Paulo eram seis horas diárias de transporte. Eu só escrevia nos fins de semana e nas férias. Era insuficiente. Morei em Macapá entre 2011 e 2013, quando vim morar em Oiapoque. Vim com a minha esposa que também é professora. Prestamos concurso para Unifap, campus Oiapoque. Ela foi aprovada e eu não. Viemos assim mesmo. Viemos trabalhar aqui. Ela como professora da Unifap e eu como professor contratado de francês da rede pública. Agora tenho tempo, saí do caos urbano e do transporte público. E tenho tempo para escrever. Tenho me dedicado ao máximo, e nesses 13 anos escrevi cinco romances. O tema escolhido independe de onde eu esteja. Morar em Oiapoque me dá tempo de escrita, economizado do transporte público. Eu escreveria esse romance em qualquer lugar do Brasil onde eu estivesse. Primeiro ele existiu dentro de mim.
OZ - Escrever a partir do Oiapoque e publicar por uma editora sediada em Macapá cria um eixo de produção literária fora do eixo Sul-Sudeste, justamente para falar sobre o centro do poder (Brasília). Como essa descentralização editorial influenciou as escolhas criativas e a liberdade no desenvolvimento do livro?
LFT - Espero, sinceramente, estar criando um novo lugar de produção fora do eixo Sul-Sudeste. Os escritores e as novas propostas estético-literárias estão espalhados por todo o país. A essa hora, um alguém, trancado num quarto, diante de uma mesa, está criando uma nova proposta de literatura... O poder econômico está na região Sul-Sudeste, que é onde estão as maiores editoras do país. Venho produzindo escrita há mais de 30 anos. Mesmo com prêmio literário dado pela USP e com o aval escrito e chancelado por Alfredo Bosi, Pierre Verger, Mary Del Priore, Oswaldo de Camargo, Maria de La Concepción Piñero, Wilson do Nascimento Barbosa, Fernando Mourão, Hudinilson Urbano, Samuel Oksman, o caminho ainda é difícil. Duro, difícil.
Tenho apresentado meus trabalhos para as editoras do eixo Sul-Sudeste, e mesmo com essa plêiade acadêmica chancelando o meu trabalho, ainda recebo silêncio e indiferença pelas propostas apresentadas. Então publicar de forma independente por uma pequena editora do Amapá, é um caminho a ser trilhado, para que o meu trabalho seja visto, conhecido pelo público. Assim, a editora O Zezeu, e toda essa circunstância, por hoje, é o melhor que poderia acontecer. A escolha do tema e desenvolvimento de proposta literária, e a própria criação estética é um processo totalmente independente de casa editorial. A não ser que fosse um trabalho feito por encomenda, já com tema e público-alvo determinado. Um livro, um romance é uma história, um acontecimento que nasce dentro do autor. O processo é interno. Ele nasce primeiro para o autor, depois vai para o papel e para o leitor. Este livro O Túmulo do Candango Desconhecido nasceu de uma conversa que tive em SP com um velho cearense, que foi candango em Brasília e viveu a história. Anos depois, em Macapá, conheci um outro homem, já velho que trabalhava de vigia em uma obra, e que fora candango em Brasília, e vivera aquele fato, o massacre de trabalhadores por parte do GEB - Guarda Especial de Brasília em fevereiro de 1959. Foi a partir desses relatos que passei a pensar em escrever esta história.




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