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Explorando as Sombras de "O Boneco"

  • Foto do escritor: Silvio Carneiro
    Silvio Carneiro
  • há 2 horas
  • 6 min de leitura

Pedro Sanches Virgolino é um jovem autor que chega para sacudir a nova literatura produzida no Amapá com seu primeiro romance, O Boneco.  


Aos 22 anos e estudante de psicologia, Pedro já havia deixado sua marca literária com o conto "Anos Dourados", publicado pela Revista Navalhista. Agora, ele expande seu universo e utiliza toda a sua bagagem acadêmica sobre a mente humana para tecer uma narrativa de tirar o fôlego.


Ambientada na gélida e enevoada Petrópolis do tenso ano de 1969, O Boneco vai muito além do suspense tradicional. Trata-se de um thriller que explora os limites da paranóia, do controle e da submissão. Na trama, acompanhamos a jornada de Severino, um jovem estudante de origem simples que, aos poucos, vê a sua realidade se estilhaçar ao ser enredado em uma teia de segredos e manipulações orquestradas pelos herdeiros de uma aristocracia implacável. Sem revelar demais, podemos garantir que é uma obra daquelas que aprisiona o leitor desde a primeira página, fazendo com que questionemos, junto com o protagonista, qual é a verdadeira fronteira entre o delírio noturno e o terror mais puro e palpável.


Batemos um papo fascinante com Pedro sobre o processo criativo, a construção psicológica do medo e as verdades que habitam as entrelinhas desta grande obra estreante.



O Zezeu: Como estudante de psicologia, de que forma você utilizou seus conhecimentos acadêmicos para construir a mente de Severino? O livro explora muito bem a linha tênue entre o delírio causado pela insônia e a percepção de que algo real o espreita. Como foi equilibrar essa dúvida para quem está lendo?

Pedro Sanches: Bom, eu tentei não aplicar conhecimentos específicos da psicologia ao personagem, principalmente porque o próprio Severino não é alguém familiarizado com a psicologia. Fazer isso poderia ter se tornado uma armadilha, criando uma consciência sobre si mesmo que ele simplesmente não teria. O que mais me ajudou a construí-lo foi me colocar em seu lugar. Realmente fechar os olhos e tentar imaginar o que eu (Pedro ou Severino), pensaria e sentiria diante de cada situação. Há também uma questão fundamental: desde a primeira página, Severino vive em um estado constante de paranoia. Pessoas nessa condição podem interpretar acontecimentos simples como sinais de algo muito maior. Aproveitei-me disso para criar a dubiedade que atravessa o romance inteiro: quais fatos apontam para algo concreto e quais são apenas fruto da desconfiança? Além disso, procurei manter o ambiente incerto. Essa instabilidade faz com que Severino mergulhe cada vez mais profundamente em seus medos e obsessões, e é justamente nesse processo que a história anda.


OZ: Ambientar a história em Petrópolis, no ano de 1969, cria uma atmosfera quase claustrofóbica e sufocante com toda aquela descrição da neblina, da chuva constante e dos casarões antigos . O que o motivou a escolher essa cidade e esse período histórico específico para abrigar a tensão da narrativa?

PS: Houve várias razões, mas acredito que a principal seja o sentimento de estranheza que Petrópolis naturalmente provoca em mim. Existe ali uma dissonância entre o aristocrático e o decadente, o brasileiro e o europeu, a riqueza e a pobreza. É uma cidade que parece assombrada naturalmente: serrana, com muita neblina e com aqueles castelos gigantescos… ao mesmo tempo, Petrópolis carrega uma herança muito forte da aristocracia brasileira. Seu próprio nome vem de Petrus (Pedro em latim), uma referência a Dom Pedro II, o que evidencia essa ligação histórica. Essa velha elite, embora nem sempre visível no cotidiano, continua exercendo uma influência gigantesca sobre nós de formas que muitas vezes passam inocentes, mas que sempre estão ali. Para mim, não havia cenário mais adequado pois Petrópolis é, na verdade, a materialização de tudo que o livro representa.


OZ: Existe um contraste muito forte entre o mundo de Severino — um estudante de origem simples do interior, que depende de bolsa para estudar — e a aristocracia inabalável com a qual ele passa a conviver, representada pela família de Nadja e outras figuras de poder da elite carioca. Qual é o papel dessa desigualdade de classes na construção do medo ao longo da história?

PS: A desigualdade social produz dois efeitos centrais na mente de Severino: a sensação de não pertencimento e a sedução exercida pelo mundo ao qual ele não pertence. Durante toda a narrativa, ele está pisando em terreno desconhecido, cercado por pessoas, hábitos e espaços que lhe são estranhos. Isso desperta medo, mas também alimenta a ambiguidade do texto. No capítulo “II — O Bode”, por exemplo, é mencionado que a casa onde Nadja vive possui inúmeros cômodos e corredores ocultos. Embora isso possa parecer estranho aos olhos de Severino, trata-se de uma característica comum em muitas mansões antigas. Eu mesmo já entrei em casas antigas construídas de maneira totalmente “estranha”. A questão é que a elite brasileira vive em uma realidade muito diferente daquela experimentada pelo brasileiro médio, como Severino. Essa discrepância pode ser explorada como fonte de perturbação e medo. Afinal, surgem perguntas como “o que essas pessoas fazem em sua intimidade?” “Por que existem tantos cômodos escondidos?” “Eles são realmente tão diferentes de  mim?” Quanto à sedução, é importante destacar que Severino não é alguém deslocado da sua própria classe social. Pelo contrário, ele está relativamente bem inserido nela. Ainda assim, sente fascínio por aquele universo e, no fundo, alimenta o desejo de fazer parte dele. E para que isso fizesse sentido, era necessário que essa elite aparecesse como ela realmente é: deslumbrante, atraente e perigosa.


A elite brasileira vive em uma realidade muito diferente daquela experimentada pelo brasileiro médio

OZ: Em várias cenas de tensão, como os episódios noturnos na residência do protagonista, o silêncio é descrito como algo pesado e ameaçador, interrompido apenas por detalhes mínimos, como passos, cliques ou latidos de um cachorro. Como você trabalhou a escrita sensorial para construir o terror psicológico sem precisar revelar de imediato o que está escondido no escuro?

PS: Para responder essa pergunta, eu preciso citar uma referência pouco provável, mas extremamente importante para mim: o filme Sinais (2002), de M. Night Shyamalan. No filme, uma família que vive em uma fazenda na Pensilvânia acompanha o que parece ser uma invasão alienígena. O aspecto mais interessante é que tudo é tratado de maneira extremamente realista. Os alienígenas quase não aparecem em cena, mas sabemos que estão chegando. Existe uma ameaça oculta, sempre próxima, e para mim esse é o tipo de terror mais assustador. Me lembro especialmente das cenas em que os personagens se refugiam em um porão, tendo noção de que algo já está do lado de fora. Quando eu era criança, esse filme me aterrorizava. Meu medo era tão intenso que qualquer barulho próximo de casa parecia indicar a presença de algo desconhecido. Sempre fui muito atraído por esse tipo de construção sensorial porque acredito que, muitas vezes, ela pode ser mais avassaladora do que a própria ameaça revelada. Tudo depende da lapidação, da atmosfera, da entonação e do ritmo. É quase como compor uma canção, nivelando os seus tons. E foi justamente isso que tentei fazer em O Boneco.


OZ: Sabemos que você já tem experiência com narrativas mais curtas, tendo publicado o conto "Anos Dourados". Como foi o desafio de expandir seu fôlego criativo para escrever o seu primeiro romance? Houve alguma mudança drástica na sua forma de planejar a história ou de desenvolver os personagens para conseguir segurar o suspense por um livro inteiro?

PS: Curiosamente, não tive grandes dificuldades na primeira parte do livro, quando os personagens são apresentados e os primeiros acontecimentos começam a se desenrolar, afinal, eu já sabia o que queria escrever. O verdadeiro desafio surgiu depois, quando Severino descobre o que realmente está acontecendo com ele. Nessa etapa, minha preocupação era manter o mesmo nível de tensão e interesse sem depender exclusivamente do mistério inicial. Para isso, procurei observar obras que, na minha opinião, não conseguiram sustentar o suspense após a revelação central e refletir sobre os motivos desse enfraquecimento. Em O Boneco, tentei fazer com que o terror não estivesse sustentado apenas pelo mistério, mas também pela natureza dos acontecimentos e pelas transformações que eles provocam nos personagens. A ideia era que o leitor continuasse igualmente envolvido mesmo depois de compreender o enigma principal. Em outras palavras, o desafio consistia em fazer com que a história se tornasse ainda mais interessante após a revelação. Como eu disse antes, um romance funciona como uma canção. Existe uma harmonia interna que precisa ser respeitada… e é essa harmonia que te leva até o final, sem cair.




O Boneco

Autor: Pedro Sanches Ano: 2026

Editora: O Zezeu

Selo: OZ

Preço: R$75

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