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O PREÇO DA MATURIDADE: O que o Edital 005 ensina ao mercado literário do Amapá

Foto do escritor: Silvio Carneiro
Silvio Carneiro
há 11 minutos
3 min de leitura

 

Nunca se investiu tanto em literatura no Amapá. Essa é uma verdade irrefutável para quem acompanha os movimentos do mercado editorial, as cadeias produtivas e as políticas públicas recentes. O Governo do Estado e a Secult demonstraram um esforço histórico em tirar o livro das sombras, construindo palcos e viabilizando orçamentos inéditos para os autores locais. A grande expectativa e a estruturação robusta para a Folia Literária Internacional do Amapá deste ano provam que a vontade política existe e está operando, na prática, a favor da palavra escrita.


No entanto, a publicação do resultado preliminar do Edital de Chamamento Público Nº 005/2026 (PNAB) traz uma reflexão dura, mas extremamente necessária, que o setor literário precisa encarar de frente. Nas categorias de maior peso financeiro e estrutural — Demanda Espontânea (com 10 vagas de R$ 250.000) e Formação na Área Cultural (com 20 vagas de R$ 54.000) —, os projetos de literatura não conseguiram assento entre os titulares selecionados. A atitude apaixonada de alguns pode ser de questionar a banca avaliadora, mas a leitura fria e técnica dos fatos aponta para o verdadeiro gargalo: o amadorismo estrutural que ainda sabota boa parte da nossa produção literária na hora de disputar recursos competitivos.


O dinheiro público exige pragmatismo mercadológico, planilhas de custos rigorosas, estratégias claras de distribuição e métricas de contrapartida. O pessoal do audiovisual, da música, da dança e do hip-hop já entendeu essa engenharia financeira faz tempo. Já no mercado do livro, muitos ainda acreditam que basta ter uma boa ideia na cabeça para garantir a palavra. A genialidade da narrativa não substitui um plano de negócios detalhado ou um cronograma gráfico que saiba prever a oscilação do preço do papel.


É claro que temos ilhas de excelência e projetos ambiciosos operando no estado, que demonstram na prática o quanto o Governo tem investido pesado na cadeia produtiva. Para a realização da Folia Literária 2026 — que, este ano, ocorrerá estrategicamente logo após o período eleitoral, em data oficial ainda a ser divulgada —, o Estado está financiando a publicação de 24 obras inéditas, além da republicação de três obras de peso na história literária amapaense. Dentre os lançamentos inéditos, o destaque absoluto vai para a Coleção Folia de Livros que, pelo terceiro ano consecutivo, lançará 10 novos títulos durante a programação do evento. Já na frente das republicações, além dos trabalhos dos escritores homenageados, brilha a edição comemorativa de 25 anos de Lugar da Chuva, de Lulih Rojanski, uma obra que é referência obrigatória e incontornável nos estudos sobre a história, geografia e cultura do Amapá.


Contudo, o sucesso e a execução primorosa dessas parcerias institucionais maduras ainda contrastam com a dificuldade técnica de uma grande massa de proponentes em preencher matrizes de financiamento. No Edital 005, projetos literários importantes como o Festival Literário Indígena na Fronteira, escorregaram nos detalhes técnicos, batendo na trave com notas como 49,9 e caindo para a extensa lista de suplentes. Não faltou porta aberta pelo Estado; faltou a malícia técnica de transformar a literatura em um projeto de Economia Criativa infalível.


O período de recursos, aberto de 18 a 21 de setembro, é uma oportunidade para ajustes técnicos. Mas, acima de tudo, o resultado deste edital deve servir como um divisor de águas. O Governo tem feito a sua parte, abrindo os cofres e se consolidando como o maior parceiro que o setor já teve. Agora, cabe aos escritores e produtores entenderem que o livro, no balcão de negócios de um editorial público, deixa de ser apenas um sonho romântico e passa a ser um produto. E enquanto não nos profissionalizarmos, continuaremos na suplência, apenas aplaudindo o fomento de outros setores.

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