Sons do Abismo: O Fascínio do Fim em Morta Paixão
- Silvio Carneiro
- há 1 hora
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A literatura contemporânea frequentemente se esquiva do romantismo sombrio, temendo talvez o peso de seus excessos. No entanto, a escritora Lúci de Seixas, em sua obra Morta Paixão, estreia na literatura com um mergulho sem amarras nessa tradição, oferecendo-nos uma narrativa que é, ao mesmo tempo, um tributo melancólico e um suspense psicológico perturbador.
A história nos transporta para a fictícia Topaza Pella, uma localidade cindida entre a luminosidade festiva de seus verões e a melancolia enigmática de seu rigoroso inverno. É neste cenário, engolido pela imponente e misteriosa Floresta das Centenárias Samaúmas, que o trágico destino de Lívio se desenrola.
O protagonista, um jovem e idealista estudante de Ciências Florestais, vê sua sanidade e sua vida desmoronarem após um desencontro fortuito. Um erro de horário o leva às profundezas da mata ao cair da noite. O que se inicia como um encantamento por uma magnética nuvem de vagalumes transfigura-se em uma obsessão fatal ao deparar-se com o túmulo de Thaís, no recôndito Cemitério dos Esquecidos. O sorriso congelado da jovem na lápide, falecida tragicamente oito anos antes, desencadeia nele a "morta paixão" que dá título ao livro.
A linha tênue entre o fantasmagórico — o perfume exalado no ar, os sorrisos gélidos — e o profundo colapso da saúde mental é trabalhada com uma precisão que angustia e fascina.
Um dos grandes trunfos da obra repousa na escolha do foco narrativo. A autora utiliza a voz de uma professora (a própria Lúci) que serve como confidente e testemunha ocular da ruína do rapaz. Esse recurso ancora o insólito na realidade palpável, evocando o "Unheimlich" (a estranheza) apontado com precisão no prefácio assinado pelo psicólogo e criminólogo português José Soares Martins. Acompanhamos, inermes, a alienação progressiva de Lívio, que troca as salas de aula e os amigos por um santuário fotográfico mórbido em seu próprio quarto.
Para além do mérito textual, é imperativo louvar a materialidade do objeto livro. A Editora O Zezeu entrega uma publicação irretocável, provando a força e o zelo da edição independente. O projeto gráfico e a diagramação exibem um rigor conceitual e minimalista que dialoga intimamente com a atmosfera de luto e mistério da obra. A decisão de utilizar papel pólen aliado à combinação elegante e criteriosa das fontes Cinzel, Crimson Text e Pinyon Script oferece um respiro visual perfeitamente alinhado à sobriedade que a narrativa exige. É um primor de ofício editorial.
Morta Paixão transcende o relato do luto para se estabelecer como uma alegoria cortante sobre a juventude interrompida e os perigos daquilo que nos atrai para a escuridão. É uma leitura instigante, destinada a permanecer por muito tempo na memória de quem ousa adentrar a floresta com Lívio e Lúci.
Sobre a autora:
Lúci de Seixas é paraense, mestre em criminologia, socióloga e professora universitária.
Ficha Técnica:
Título: Morta Paixão
Autora: Lúci de Seixas
Editora: Editora O Zezeu (2026)
Editores: Lulih Rojanski, Silvio Carneiro
Capa e Diagramação: Estúdio RC Design
Gênero: Ficção brasileira
Preço: R$60




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