Semana Estadual do Marabaixo 2026 festeja a ancestralidade, reparação histórica e reúne milhares de pessoas em Macapá
- juliarojanski
- há 3 dias
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Neste domingo (14), o Parque Residência recebeu a abertura oficial da Semana Estadual do Marabaixo 2026, reunindo milhares de pessoas em uma grande festa da cultura, da fé e da ancestralidade afro-amapaense. A programação contou com rituais tradicionais, a participação dos sete barracões históricos e um show especial da cantora Alcione, que emocionou o público ao homenagear as tradições do estado. O momento representou um reencontro com a história.
Durante a cerimônia, o governador do Amapá, Clécio Luís, destacou o significado simbólico de levar o Marabaixo para um território diretamente ligado às origens da população negra de Macapá.
Segundo o governador, a iniciativa representa uma forma de reconhecer a contribuição dos povos afrodescendentes para a formação do estado, resgatando memórias de famílias que viveram às margens do Rio Amazonas e que, ao longo do processo de urbanização da cidade, foram deslocadas para regiões como Laguinho, Santa Rita e Centro.
A programação de abertura reuniu os festeiros dos sete barracões tradicionais: Mestre Pavão, Dica Congó, Campina Grande, Tia Biló, Tia Gertrudes, Azebic e Casa Grande, em rituais que atravessam gerações. O cortejo da murta e o tradicional levantamento dos mastros da Santíssima Trindade e do Divino Espírito Santo marcaram a noite, reafirmando a força de uma tradição reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Amapá.
Para a marabaixeira Danniela Ramos, bisneta do mestre Julião Ramos, o retorno das comemorações ao Parque Residência possui um significado profundo. Ela ressaltou que o local guarda a memória dos antepassados que ajudaram a construir a identidade cultural da cidade e que mantiveram viva a tradição do Marabaixo mesmo após deixarem a região.
A presidente da Fundação Estadual de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Josilana Santos, também destacou o caráter histórico da iniciativa. Para ela, a realização da cerimônia naquele espaço representa uma importante ação de valorização da identidade afro-amapaense e de reconhecimento do protagonismo da população negra na construção social, cultural e econômica do estado.
Tradição que atravessa gerações

Entre os elementos mais marcantes da abertura esteve o levantamento dos mastros, símbolo de proteção, espiritualidade e resistência cultural. Ornamentados com ramos de murta, eles carregam significados transmitidos entre gerações de marabaixeiros. A planta, considerada um elemento de purificação, é utilizada para proteger os mastros e afastar energias negativas durante o ciclo festivo. Renovados anualmente, os mastros são retirados de áreas tradicionais como Curiaú, Coração, Campina Grande e Casa Grande. O processo reforça a conexão entre território, ancestralidade e preservação dos saberes herdados dos antepassados.
A continuidade dessa herança cultural também é missão assumida pelas novas gerações. Presidente do Grupo Marabaixo da Juventude, Fábio Sacaca, de 28 anos, mantém viva uma tradição familiar que atravessa décadas. Pai de duas meninas, ele vê nas filhas a continuidade de uma história construída por seus ancestrais e alimentada diariamente pelos cantos, pelas caixas e pelos ensinamentos transmitidos dentro dos barracões.
Central do Marabaixo fortalece cultura e turismo
A abertura também marcou o fortalecimento da Central do Ciclo do Marabaixo, espaço criado para aproximar moradores e visitantes das tradições afro-amapaenses. A estrutura reúne os sete barracões históricos e oferece ao público experiências ligadas à religiosidade, gastronomia, arte e memória das comunidades tradicionais.
Para a festeira Solange do Carmo Costa, da comunidade de Campina Grande, a iniciativa amplia o alcance da manifestação cultural e permite que mais pessoas conheçam a riqueza do Marabaixo.
A Semana Estadual do Marabaixo segue até o dia 20 de junho com uma programação voltada à valorização do patrimônio cultural e à formação das novas gerações. Entre as atividades estão palestras, oficinas educativas, rodas de conversa, ações em escolas públicas e o VI Congresso Estadual do Marabaixo, que debaterá o tema “O Marabaixo como Patrimônio Vivo”. A programação também inclui a entrega do Prêmio Mestre Jorge a 44 compositores tradicionais.
Alcione comemora a cultura amapaense

Um dos momentos mais aguardados da noite foi o show da cantora Alcione, que reuniu milhares de pessoas no Parque Residência. A artista apresentou sucessos consagrados da carreira, como A Loba, Meu Ébano e Não Deixe o Samba Morrer, mas reservou um espaço especial para homenagear o Amapá. Ao lado de marabaixeiros e tocadores de caixas, Alcione interpretou o tradicional ladrão de Marabaixo “Aonde Tu Vai, Rapaz?”, emocionando o público presente. Durante a apresentação, a cantora ressaltou sua admiração pela manifestação cultural e pela força das comunidades que mantêm viva essa tradição centenária.
A aproximação da artista com o Marabaixo também se fortaleceu por meio do projeto “Marabaixo: Tradição do Amapá”, desenvolvido pelo Governo do Estado, que reuniu sua voz a ladrões tradicionais em parceria com artistas amapaenses, ampliando a visibilidade da cultura local para todo o país. A cantora revelou ainda que passou a conhecer mais profundamente o Marabaixo através do enredo “Amazônia Negra”, apresentado neste ano pela escola de samba Estação Primeira de Mangueira, que levou para a Marquês de Sapucaí referências à ancestralidade amazônica e às tradições afro-amapaenses.
Cultura como instrumento de identidade e inclusão
Ao reunir tradição, religiosidade, música e memória, a Semana Estadual do Marabaixo reafirma a importância da maior manifestação cultural do Amapá como instrumento de fortalecimento da identidade afro-amapaense. A programação promovida pelo Governo do Estado busca não apenas preservar um patrimônio imaterial, mas também garantir que as futuras gerações continuem reconhecendo no Marabaixo uma expressão viva de resistência, pertencimento e orgulho cultural.
Entre cantos, caixas e danças que atravessam séculos, o Amapá reafirma suas raízes e comemora a permanência de uma herança que segue viva nas comunidades, nos barracões e na memória coletiva do povo amapaense.




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