Quando a Poesia Salta da Página e Ganha Corpo

Há um limite físico até onde a tinta e o papel conseguem levar um poema. No complexo ecossistema da literatura, a poesia muitas vezes encontra seu verdadeiro teste de fogo longe das estantes: na oralidade. É essa transmutação do texto inerte para a experiência viva que o coletivo Poetas Azuis se materializa nesta sexta-feira (23), a partir das 19h, com o sarau “A Palavra Voa”.
Sediado na Galeria Vicente Souza (no Conselho Estadual de Política Cultural, no centro de Macapá), o evento é uma prestação de contas estética. Ele coroa o workshop de poesia falada que o coletivo ministrou na semana passada, um laboratório onde a literatura foi dissecada pelo fôlego, pelas pausas e pela linguagem corporal.
Na expressão literária, foca-se muito na figura solitária do autor e no leitor silencioso. Contudo, Pedro Stkls, uma das vozes à frente dos Poetas Azuis, entende a poesia como um patrimônio partilhado. Ao abrir o microfone para novos intérpretes, o grupo descentraliza o escritório:
“Quando a gente compartilha o que aprendeu, abre espaço para que outras pessoas descubram suas próprias formas de dizer poesia”, reflete Stkls.
É um movimento inteligente de formação de público e de novos talentos numa cena regional que ainda busca furar a bolha do grande mercado editorial brasileiro.
O cofundador do coletivo, Thiago Soeiro, toca no nervo do que faz um sarau sobreviver à era do entretenimento digital: a presença.
“Mais do que um poema, é perceber o que ele provoca em nós e como podemos comunicar isso ao outro interpretado”, aponta.
A poesia falada não compete com o mercado editorial; ela o retroalimenta,transformando uma leitura,que costuma ser um ato de isolamento,em um acontecimento coletivo.
O palco desta sexta-feira será entregue a uma nova safra de vozes que passaram por essa passagem — nomes como Naíde Carvalho,Luh Gomes,Nara Ferreira,Jaciara Martins,Camila Rocha,Lene Cativo,Adriana Idalino,Camila Pessoa,Daniel Oliveira,Lu de Oliveira,Márcio da Paixão Barros,Francisca Kaunna,Jojo Dieira,Neuma Santos,Pat Andrade e Edson Júnior.
Para arrematar a noite,os anfitriões não apostam no óbvio.Os Poetas Azuis sobem ao palco para o recital Bagagem,emprestando corpo e voz à obra da mineira Adélia Prado — uma escolha cirúrgica que dialoga perfeitamente com a proposta de encontrar o sagrado,a força e o espanto no cotidiano mais rústico.

Serviço:
O quê: Sarau “A Palavra Voa”
Quando: Sexta-feira,23 de outubro,a partir das 19h
Onde: Galeria Vicente Souza (CEPC/AP) - Av.Professora Cora de Carvalho,1842,Central,Macapá.
Entrada:Gratuita




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