A Memória na Ponta da Língua: A Resistência Lírica e o Tempo dos Poetas Azuis

Longe da efemeridade dos algoritmos, Pedro Stkls e Thiago Soeiro abrem uma contagem regressiva para seus 15 anos de palco com um espetáculo íntimo, provando que a poesia no Amapá é, antes de tudo, um artefato de sobrevivência.
No mercado editorial e cultural contemporâneo, onde a atenção do leitor é disputada a tapas por rolagens infinitas nas redes sociais e por um ciclo de lançamentos que envelhece na mesma semana em que chega às vitrines, manter um projeto literário vivo por quase uma década e meia é, praticamente, um ato de teimosia. E o que os Poetas Azuis vêm fazendo desde 2012, além de resistir às intempéries e efemeridades do campo artístico, é construir uma base sólida.

Quando Pedro Stkls e Thiago Soeiro subirem ao palco do Palácio da Cultura Mestre Jansen na noite de 10 de outubro, eles estarão inaugurando uma meticulosa caminhada rumo aos 15 anos da dupla, em 2027. Prova disso é o nome do espetáculo que dá a largada a essa celebração, que soa como um balanço existencial: O que ficou azul . Porque para seguir caminhando bem, vez ou outra é preciso parar e olhar para trás, vendo tudo o que se conquistou no caminho.
E fazer esse tipo de curadoria da memória é, muitas vezes, um terreno pantanoso. A tentativa de construir um passado idílico e monumental não é tarefa fácil. Mas a direção de Jó Sales parece ter compreendido a armadilha. A proposta não é uma retrospectiva engessada, mas uma arqueologia dos afetos. Entre recortes de poemas, o piano elétrico, o violão e o acolhimento percussivo de Helder Cardoso, o palco se transforma em uma intersecção. O passado e o presente não se chocam; eles conversaram na mesma mesa, cercados por objetos e canções que sobreviveram à erosão do tempo.
“Pensar que vamos chegar aos 15 anos em 2027 nos dá um enorme orgulho e, por isso, resolvemos começar, a partir de agora, a celebração” (Thiago Soeiro).
“Carregamos em nossa história diversos espetáculos, recitais, viagens, trocas de experiências com autores do Amapá e de diversas partes do Brasil, além da nossa atuação nas redes sociais, que funciona como um ponto de leitura na internet desde 2014. Por tudo isso, precisamos celebrar a palavra” (Pedro Stkls).
A escolha do formato de lançamento desta contagem regressiva também diz muito sobre o momento da dupla. Apenas 30 vagas disponíveis para o público externo via Sympla. Há uma inteligência cenográfica e relacional aqui. Reduzir a escala é aumentar a intimidade. Em um momento onde tudo precisa ser massivo e viral, fechar as portas para criar uma atmosfera de inspiração é uma provocação estética fantástica. Com a produção refinada da Duas Telas, o espetáculo obriga o espectador a estar presente de corpo e escuta, algo cada vez mais raro.
O show do dia 10 será apenas o prólogo. A rota até outubro de 2027 promete o lançamento de publicações, um mergulho audiovisual em formato de documentário e aquilo que é a grande força motriz de qualquer polo literário fora do eixo sudestino: o trabalho de base, com oficinas de escrita criativa e poesia falada.
Ao final, podemos transformar o título do espetéculo em uma pergunta provocadora: O que ficou azul? Nesses 14 anos, enquanto o mundo acelerava, o que de fato aconteceu conosco? Para os Poetas Azuis, a resposta parece ser a própria palavra falada. Nua, ritmada e teimosamente viva.

SERVIÇO: O QUE IMPORTA PARA A AGENDA
Espetáculo Poético: O que ficou azul
Data: 10 de outubro de 2026 (Quinta-feira)
Horário: 20h
Local: Palácio da Cultura Mestre Jansen (Conselho Estadual de Política Cultural) — Av. Profa. Cora de Carvalho, 1842, Central – Macapá.
Entradas: Entrada gratuita, mas severamente limitada a 30 lugares. A retirada deve ser feita via Sympla.
Ficha Técnica Diretor: Direção Geral de Jó Sales; Direção Musical de Maelson Mascarenhas; Produção de Duas Telas Produtora Cultural (Produção Executiva: Susanne Farias).




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