A Fábrica de Miragens: Como a preguiça jornalística alimenta falsos heróis
- Silvio Carneiro
- há 1 dia
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O mercado editorial é, em sua essência, uma máquina de vender narrativas — e não estou falando apenas daquelas impressas nas páginas dos livros. Quem transita pelos bastidores das grandes feiras sabe que a persona do autor é frequentemente tão esculpida pelos departamentos de marketing quanto o texto o é pelos preparadores e editores. No eixo principal do mercado, isso é feito com orçamentos milionários e relações públicas calculadas.
Mas o que acontece quando nos afastamos desse centro nervoso? O que acontece em praças geograficamente isoladas, mas culturalmente vivas, como o Amapá?
A resposta é incômoda: o nosso isolamento cria um ecossistema perfeito para a fabricação de miragens.
Quando um estado vive à margem dos grandes centros editoriais e da rota tradicional das grandes turnês de autores, cria-se uma fome desesperada por representatividade. A sociedade quer um herói local para aplaudir. E é exatamente aí, entre o desejo legítimo de reconhecimento e a ignorância sobre como a cadeia produtiva do livro realmente opera, que os impostores montam sua tenda.
A anatomia da fraude é assustadoramente simples e baseada na assimetria da informação. Funciona assim: um autor paga uma editora em Portugal ou nos Estados Unidos para imprimir cinquenta exemplares sob demanda. Continuamente, dispara-se o gatilho. O que é uma transação comercial trivial é embalado como: "Autor amapaense rompe fronteiras e é publicado na Europa."
Na sequência, o autor inscreve a obra em um daqueles prêmios literários internacionais obscuros, cuja única barreira de entrada é o pagamento de uma taxa de 150 dólares e que premia pessoas por categoria. O comunicado de imprensa ganha um novo verniz: "Autor internacionalmente premiado."
Qualquer pessoa que entenda as minúcias deste mercado sabe o quão ridículo isso é. A venda real de direitos de tradução envolve olheiros literários farejando tendências, agentes negociando contratos complexos de licenciamento territorial, repasses de royalties e uma aposta financeira real de uma casa publicadora estrangeira. Mas o público geral não tem obrigação de saber diferenciar a venda de direitos autorais de uma autopublicação travestida de chancela gringa.
Quem tem essa obrigação é a imprensa. E é aqui que uma farsa literária se transforma em tragédia jornalística.
Em redações cada vez mais enxutas e pressionadas pela velocidade do clique, o jornalismo cultural foi substituído pelo repasse acrítico de press releases . O repórter, seja por falta de braço, tempo ou técnica, recebe o texto do suposto "herói literário" e simplesmente dá um "copiar e colar". Não há verificação de fatos. Ninguém liga para perguntar qual foi a tiragem exata. Ninguém confere se a tal "editora europeia" não é apenas uma gráfica sob demanda de fundo de quintal. Ninguém cruza os dados do ISBN ou levanta o histórico do tal prêmio.
A imprensa compra o pacote porque a pauta do "filho da terra que venceu lá fora" gera engajamento fácil e afaga o orgulho regional. A ironia é que, ao abrir mão do pragmatismo e da apuração rigorosa, o jornalismo se torna cúmplice de um estelionato intelectual.
Recentemente tenho visto coisas circulando na imprensa tradicional amapaense e nas redes sociais, que eu não sei se são para rir ou para chorar. Escritores "com títulos de doutor honoris causa", academias repletas de "PhD", autores que começaram a escrever um dia desses com auxílio de IA "selecionados para grandes prêmios", tendo seus livros se tornado "leitura obrigarória" no currículo escolar de países lusófonos...
E qual é o verdadeiro dano disso? Afinal, é apenas o ego de um indivíduo inflando, certo? Errado.
O custo dessa mentira é pago pelos profissionais que estão, neste exato momento, construindo o mercado real. Enquanto o falso herói internacional ocupa os cadernos de cultura e os espaços de destaque com seu monólogo promocional pré-ensaiado, os escritores de verdade são invisibilizados.
O livro é um artefato mágico, sim. Ele nos transporta, nos confronta e nos reflete. Mas ele também é um produto comercial, e sua cadeia de produção exige respeito, suor e técnica. Quando permitimos que qualquer um invente uma credencial no exterior só porque sabemos que ninguém vai verificar as fontes, estamos desvalorizando a literatura de verdade que está sendo escrita, editada e consumida de frente para o Rio Amazonas.
Está na hora de exigirmos mais. Da imprensa, que precisa voltar a fazer perguntas oblíquas e verificar os fatos antes de imprimir elogios. E de nós mesmos, que precisamos parar de comprar o brilho falso de fora para começar a enxergar o valor genuíno — e muitas vezes mais complexo, árduo e brilhante — de quem produz literatura aqui dentro.




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