Quebra-cabeça | Daniela Rodrigues*
- Silvio Carneiro
- há 3 horas
- 2 min de leitura

A madrugada despontou sem que o dia findado tivesse descansado.
Aquele corpinho encolhido sobre a cama, sentindo minha presença agarrada ao cheiro dos lençóis como se ali estivesse meu abraço.
Meia-noite, uma hora, uma e meia, duas horas…
Enfim pude também descansar. Um beijo demorado no rosto da pequena compensando a minha ausência.
Viro para um lado, viro para o outro, o sono não chega.
Os pensamentos correm rápido demais. Minha cabeça dói, parece não suportar tantos pensamentos, tantas imagens, tanta loucura, e mais pensamentos, culpas, julgamentos, tudo ao mesmo tempo.
Por favor, me deixe dormir. Desacelera, por favor, eu só quero esquecer de tudo e descansar.
Mas parecia que o quebra-cabeça não se encaixava, ou até parecia encaixar, porém nunca na ordem certa.
Uma mente abatida, submetida a horas de exaustiva produtividade.
Agora sim, parece que consegui dormir.
Talvez tenha sido só um intervalo entre pensamentos.
Caramba, não deu tempo de descobrir.
Ela acordou.
Um choro urgente e assustado me chamou de volta na mesma hora.
Será que dormi ou estava em pensamentos inevitáveis?
— Vem cá, meu amor, não chora, eu estou aqui.
Ela se acalmou rápido, como se minha presença reorganizasse seu mundo, respirou fundo, se aconchegou e com voz sonolenta me disse:
— Vamos dormir abraçadinhas.
E naquele abraço acolhedor tudo se encaixou por um instante.
A mente ainda cansada, o corpo também.
Nos entregamos àquele desfrute.
Afinal, o amor sempre sabe onde encaixar cada peça em seu lugar.
*Daniela Rodrigues é universitária do curso de Letras da Universidade do Estado do Amapá (UEAP). Integra o Coletivo literário Ventos do Norte, dedicado à produção independente de zines. Apaixonada pela literatura, acredita na palavra como força criadora e transformadora.
Este texto é fruto da oficina de escrita criativa organizada pelo Coletivo Ventos do Norte e ministrada pelo prof. Dr. Luciano Duarte (UEAP).




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