A Última Lembrança do Sol | Dauan Lopez*
- Silvio Carneiro
- há 3 horas
- 2 min de leitura

A grama, entre o verde e o cinza, crescia lenta, tomando os pequenos degraus da escada que levava à entrada de uma casa branca, opaca, quase sem memória de si. Ali morava um senhor de idade.
Estava sozinho naquela casa grande demais para um único corpo. Nunca se casara. Nunca tivera filhos. A família, distante — tão distante quanto aquilo que já não conseguia lembrar. Sua memória já não obedecia como antes; falhava, apagava, desfazia contornos. Ainda assim, havia algo que persistia, imóvel no tempo.
Ele lembrava.
Do nascer do sol em um verão longínquo. Do cheiro do rio. Da brisa fria que tocava o rosto como um aviso suave. Lembrava de uma tarde em Macapá — vaga, mas insistente — e das mãos de outro entre seus cabelos, do toque sobre a pele bronzeada. Lembrava das tardes silenciosas dentro da casa, quando o mundo parecia suspenso, e ele se deixava cair nas lembranças de um menino de cabelos escuros.
Um menino que ele havia amado.
Quando ainda era muito jovem para compreender o peso disso. Naquela época, amar daquela forma parecia errado. E, no fundo, ainda parece.
Havia também uma canção que o outro lhe cantava, fragmentada, sobrevivendo como um eco que se recusa a morrer:
“Ao pôr do sol
eu vou te dizer
que o nosso amor
não pode morrer...”
Mas tudo morre — ele pensava, sem dizer.
Guardava ainda outra lembrança, viva como o vermelho de uma noite longa: o menino falando de um pássaro místico, como se a existência pudesse ser outra coisa além de espera. E depois, o calor. As peles que se encontravam, se confundiam, dissolvendo-se uma na outra como açúcar no café quente — breve, inevitável, irreversível.
E, então, o fim.
Aquela noite foi a última.
O tempo, indiferente, seguiu. Levou o menino, levou os dias, levou quase tudo. Restaram apenas vestígios — e aquele homem, que continuava ali, como se ainda aguardasse algo que não viria.
Porque, no fundo — num lugar que ele evitava encarar — sabia.
Nunca se casou porque esperava.
Esperava o retorno daqueles olhos que um dia o olharam com desejo, como se ele existisse de verdade. Esperava que, junto com esse olhar, viesse também aquilo que perdera sem perceber: o próprio coração.
E talvez, pensava, quase sem acreditar —
Talvez então fosse possível amar outra vez.
*Dauan Lopez, estudante de letras pela UEAP, nascido em Macapá e crescido no bailique, desenvolveu um grande amor pela leitura aos 8 anos e aos 12 começou a escrever seus próprios contos. Poeta, amante de Clarice Linspector e desenhista.
Este texto é fruto da oficina de escrita criativa organizada pelo Coletivo Ventos do Norte e ministrada pelo prof. Dr. Luciano Duarte (UEAP).




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