A Reprodução Social da Violência Contra a Mulher: Um Estudo Entre Literatura e Cinema | Por Dauan Lopes
- Silvio Carneiro
- há 1 hora
- 4 min de leitura

Clara dos Anjos (1948), de Lima Barreto, é uma narrativa dolorosamente lúcida sobre a vulnerabilidade feminina em um Brasil marcado pela desigualdade, pelo racismo estrutural e pelo moralismo hipócrita. Clara, jovem negra e filha de um carteiro do subúrbio, cresce entre sonhos singelos e limites silenciosos, impelida por uma realidade que a enxerga menos como pessoa e mais como destino pré-escrito. A obra desmonta, com rigor e tristeza, a ilusão de que a sociedade protege suas jovens; ao contrário, ela as expõe.
Lima Barreto retrata o subúrbio carioca como um espaço onde todos veem tudo, mas ninguém realmente age. Cassi Jones, o sedutor malandro cuja fama de enganar e abandonar moças já é amplamente conhecida, é sustentado justamente pelo silêncio coletivo. A comunidade não o denuncia, não o confronta, não tenta impedir seus atos. Essa omissão não é apenas pano de fundo: é parte ativa da “violência”. Clara, ingênua e cercada pela passividade dos adultos, acaba presa em um mecanismo social que não deixa margem para sua voz.
O realmente cruel em Clara dos Anjos não é apenas a atitude de Cassi Jones — é o fato de que ele pode agir assim. O mal, na obra de Barreto, não é extraordinário: é cotidiano, repetitivo, aceito. O autor denuncia a banalidade do abuso, o peso que a condição racial impõe a Clara e o descaso de uma sociedade que acredita que a honra de uma jovem pobre é dispensável. Clara não perde apenas a inocência: perde o direito de ser escutada, protegida e tratada como sujeito de sua própria vida. A narrativa, assim, torna-se uma crítica amarga ao Brasil urbano, que condena moralmente a vítima e absolve o sedutor pela força da conveniência social.
Ao aproximarmos Clara dos Anjos do filme Você Está Sozinha?(Are You in the House Alone?), percebemos que, embora separados por décadas e por contextos culturais distintos, ambos revelam a mesma estrutura de violência legitimada pelo silêncio social. No filme, essa violência se personifica em Phil Lawvere, um adolescente popular, atleta da escola e filho de uma família influente da pequena comunidade. À primeira vista, Phil é o típico “bom garoto” que todos conhecem e confiam: educado, carismático, bem visto pelos professores e respeitado pelos colegas. Mas essa imagem pública funciona como máscara e escudo. É justamente atrás dessa reputação impecável que ele oculta comportamentos agressivos, perseguições, ameaças anônimas e, por fim, o ataque contra Gail, a protagonista. Assim como Cassi Jones em Clara dos Anjos, Phil não é apenas um indivíduo violento — é alguém que opera dentro das brechas sociais, protegido por um ambiente que prefere manter a aparência de normalidade a enfrentar a verdade sobre seus “bons meninos”.
Tanto Cassi Jones quanto Phil são produtos de ambientes sociais que lhes garantem impunidade antecipada. Eles se aproveitam dessa estrutura para agir sem medo de consequências. A diferença é de método, não de essência: um seduz e abandona; o outro persegue e ataca. Mas é o mesmo mecanismo que permite que ambos continuem: a omissão dos que veem, a dúvida dos que sabem, a proteção dos que poderiam intervir. A sociedade, nas duas obras, é cúmplice — por conveniência, por interesse ou por medo.
Clara e Gail são, assim, duas faces de uma mesma tragédia universal: a experiência feminina do descrédito. O trauma que carregam não é apenas individual; é histórico. As duas narrativas revelam que o verdadeiro horror não está no ato isolado do agressor, mas na estrutura que o sustenta — a estrutura que decide, repetidas vezes, acreditar no agressor antes da vítima.
Ler Clara dos Anjos ao lado de Você Está Sozinha? amplia nossa percepção sobre o caráter estrutural da violência contra mulheres. Ambas as obras revelam que o perigo não nasce sozinho: ele é cultivado, protegido e alimentado pelos que escolhem não ver. Clara e Gail, separadas por tempo e geografia, encontram-se num mesmo ponto: o da jovem cuja dor é tratada como inconveniência social.
No fundo, Clara e Gail caminham lado a lado, mesmo sem saber. Uma atravessa as ruas poeirentas do subúrbio carioca; a outra percorre corredores silenciosos de uma escola americana, mas ambas carregam o mesmo peso invisível:
A dor de viver em um mundo que escuta pouco e julga cedo demais.
Cada uma, à sua maneira, aprende que o perigo não mora apenas nos becos, nas cartas anônimas ou nas esquinas escuras — mora também nos olhos que desviam, nos ouvidos que não acolhem, e nas mãos que poderiam ter ajudado, mas escolheram ficar imóveis.
Clara dos Anjos e Gail não são apenas personagens, são vozes que atravessam o tempo como um aviso, vozes que dizem que a violência não nasce de um único homem, mas de todos aqueles que fingem não vê-lo, e talvez a poesia amarga dessas duas histórias seja que enquanto o silêncio for a língua da comunidade, as vítimas continuarão gritando sozinhas.
Essas narrativas nos recordam que, quando a comunidade silencia, o agressor prospera. E que, enquanto a sociedade não mudar seu modo de ver, ouvir e proteger suas jovens, a história de Clara e de Gail continuará sendo reescrita, novamente, em cada esquina do mundo.
Referências:
BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. São Paulo: Penguin & Companhia das Letras, 2010.
Are You In The House Alone?. Direção de Walter Grauman. Produção de Harve Bennett. Estados Unidos: CBS, 1978. 1 filme (90 min), color., son.





Comentários