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No canto (Para Luana Tainá) | Dauan Lopez

  • Foto do escritor: Silvio Carneiro
    Silvio Carneiro
  • há 2 horas
  • 2 min de leitura

 

Estive no canto —

não à direita da esperança,

mem à esquerda do fim.

Era um intervalo suspenso,

um traço entre dois abismos

que insistiam em me chamar de mim.

 

Entre a vida e a morte fiz morada,

não como quem vive,

nem como quem parte.

Fui o meio exato da estrada quebrada,

o eco da dúvida na própria verdade,

a metade ausente da minha metade.

 

Preso no canto do quarto e do ser,

onde a sombra aprende a me conhecer.

Ali, o silêncio gritava meu nome,

e a ausência tinha o meu sobrenome.

 

Não sei para onde ir —

se avanço, traio o medo;

se recuo, traio quem sou.

Há uma corrente invisível no peito,

um ferro forjado no próprio desejo

que me acorrenta ao que restou.

 

Este inferno não tem chamas,

tem espelhos.

Não queima a pele —

consome os joelhos.

É o peso de existir sem existir,

é respirar e ainda assim não sentir.

 

Estou preso no meio, no quase, no talvez.

Sou a pergunta que nunca se fez.

Entre um e dois, não sou nenhum,

sou a soma vazia que não dá um.

 

Tenho medo de sair do canto escuro,

porque lá fora exige-se futuro.

E eu, fragmento do que não nasceu,

temo descobrir que o nada sou eu.

 

Estamos presos — eu e meu reflexo,

num pacto mudo e complexo.

Somos vozes sem som,

corpos sem chão,

ideias que falham

na própria invenção.

 

Dizemos: “não existimos”,

como quem implora para existir.

Repetimos: “não somos reais”,

com medo de sentir.

 

Presos no canto, no meio do ser,

onde viver é não saber viver.

Onde a luz ameaça revelar

que o cárcere é interno,

e o escuro é só o lugar.

Onde aprendemos a nos chamar

de eternos.



Dauan Lopez é um escritor nortista de linguagem poética e melancólica, cuja obra explora a solidão e as profundezas emocionais humanas.

 
 
 

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