A avó | Camila Baia
- Silvio Carneiro
- há 12 minutos
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A avó abre a porta sorrindo, a casa tem um cheiro de café e chuva que traz paz e alivia o medo do retorno. De fato, nada mudou.
Senta na sala. A avó manda a menina buscar um café, fala sobre a vida, os parentes, as dores e a neta ouve em silêncio, sorrindo. Ouve enquanto olha pela janela e vê as mesmas árvores, as mesmas flores... há um barulho de galinhas em baixo da casa e um cheiro de azeite de andiroba sendo fervido em um tambor.
Do azeite lembra do amargor, lembra de ter a garganta curada, não poucas vezes, mas também lembra que a avó, quando tinha, colocava um pouco de mel no azeite antes de colocar o dedo enrolado no algodão e embebido no azeite em sua boca.
A avó ainda fala, alguma parente está vindo de algum interior, está perto do parto e precisa puxar a barriga e ajeitar o bebê que está sentado, antes de chegar a hora do parto.
A camisola de hoje é branca, com pequenos bordados, é antiga como a vida da avó, como a casa e como o que nela há.
Os cabelos da avó são brancos e estão presos com um pente. Há quanto não via outro cabelo preso dessa forma? Não lembra, não viu.
O cheiro da avó e de café, fumaça e azeite, cheiros fortes como a avó.
Então vem a chuva, o cheiro de terra molhada, as gotas grossas batendo no telhado da casa. Cai um raio, a avó grita, a menina corre, cobre os espelhos, tira os poucos aparelhos das tomadas, fecha as janelas, pega uma vasilha e pões em baixo daquela velha goteira.
Espera passar a chuva – manda a avó.
A chuva passa, a neta se despede, abraça forte a avó que a abençoa, querendo que aquele abraço dure um pouco mais.
A neta abre os olhos, sente o aperto no peito e tem uma lágrima escorrendo pelo olho.
Venha me ver de novo vó - pede a neta ao acordar.




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