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Vermelho | por Dauan Lopez

  • Foto do escritor: Silvio Carneiro
    Silvio Carneiro
  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

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O vermelho era chama — intenso, pulsante, cheio de vida. Caminhava pelo mundo com firmeza, certo de si, e sua presença era sempre lembrada. As outras cores o admiravam, diziam que nele havia algo de raro, de inconfundível, e que jamais se deixava dissolver em qualquer mistura. Ele brilhava sozinho, inteiro.


Mas um dia, entre idas e vindas, encontrou o azul. Um azul suave, sereno, quase etéreo. Havia nele a quietude das madrugadas e o frio delicado das águas profundas. O vermelho nunca havia contemplado uma cor assim: tão distante de sua natureza ardente e, ao mesmo tempo, tão irresistível.


Aproximou-se com a curiosidade de quem pressente um destino. E, quando se tocaram, não houve estranhamento, apenas um reconhecimento silencioso. As palavras entre ambos vinham como sussurros poéticos, ora leves como brisa, ora densas como um segredo antigo. Cada encontro tornava-se um mergulho, e o vermelho, que antes queimava sozinho, agora ardia na espera diária do azul.


Ele buscava aquela cor como quem busca um espelho do que nunca soube que existia dentro de si — e, ao encontrá-lo, desejava permanecer ali, suspenso, no limiar entre fogo e oceano.


O vermelho, acostumado a ser o centro, começou a descobrir silêncios que nunca havia notado antes. Ao lado do azul, aprendia a pausa, o intervalo entre uma palavra e outra, o espaço onde a respiração se tornava música. O azul não o dominava, não o apagava — apenas o envolvia, como a noite envolve a chama de uma vela.


O tempo passou, e juntos criaram uma linguagem própria, feita de olhares que se cruzavam como tons que se tocam. Mas o mundo das cores observava à distância, curioso e, ao mesmo tempo, inquieto. Perguntavam-se: como poderia o vermelho, tão ardente, estar tão próximo do azul, tão frio? Não se consumiriam? Não se desfariam em algo que não era nem um, nem outro?


O vermelho, apesar da dúvida que às vezes o rondava, continuava voltando. Era atraído pela calmaria do azul, pelo modo como cada gesto dele parecia conter o infinito. Contudo, com o passar dos dias, o vermelho começou a perceber que o azul não ardia como ele. O azul permanecia distante, como o mar que beija a margem e, ainda assim, nunca se deixa prender.


E foi ali que nasceu a melancolia: o vermelho descobriu que quanto mais se aproximava, mais sentia a distância. Amava o azul com a intensidade de um incêndio, mas o azul o amava como se ama o horizonte — belo, intocável, inevitavelmente longe.


O vermelho se aproximava do azul como quem caminha para um mistério que não pode evitar. Cada encontro era um sopro diferente: às vezes o azul se abria, deixando o vermelho se perder em suas águas serenas; outras vezes, fechava-se, distante, feito céu nublado que não se deixa atravessar pela luz.


E o vermelho, que sempre ardera sozinho, começou a desejar mais: não apenas palavras, não apenas olhares. Queria sentir o azul em sua pele, no seu corpo de cor, queria misturar-se. Não para desaparecer, mas para se tornar algo novo.


Um dia, então, o vermelho estendeu-se e tocou o azul. No instante em que se encontraram, algo aconteceu: não eram mais apenas fogo e mar. Um violeta nasceu da colisão — uma mancha suspensa, como um céu de outono no momento em que o sol se despede. Era beleza pura, efêmera, quase divina. O vermelho sentiu-se vivo como nunca, acreditou ter encontrado a eternidade num único gesto.


Mas o azul olhou para aquela cor e, com sua calma fria, disse:


— Eu não gosto muito do roxo.


As palavras caíram como chuva gelada sobre o coração incandescente do vermelho. A beleza que ele via — aquele instante que lhe parecia sublime — para o azul era apenas estranheza, algo que não lhe pertencia, o vermelho permaneceu imóvel diante da resposta do azul. Dentro de si, algo se quebrou em silêncio — não foi um estrondo, mas uma fissura lenta, dolorosa, como vidro rachando sob pressão. Ele havia sentido no violeta uma eternidade; para ele, era como se o mundo inteiro tivesse se reunido naquela cor. O vermelho viu beleza, viu promessa, viu amor.


Mas ao ouvir que o azul não gostava do roxo, o encanto se desfez como uma chama sufocada pelo vento. Uma onda de melancolia o tomou: a sensação de que havia mostrado o que tinha de mais íntimo e, ainda assim, aquilo não era suficiente. Era como entregar o próprio coração e vê-lo devolvido com indiferença.


O vermelho passou noites pensando no instante em que se tocaram. Para ele, o roxo era poesia, era crepúsculo, era a dança impossível entre fogo e mar. Mas para o azul… não passava de um incômodo. E essa diferença começou a pesar.


Com o tempo, o azul revelou seus motivos. Disse que temia perder-se no roxo, que aquela mistura lhe parecia traição à sua própria natureza. O azul queria permanecer azul — calmo, constante, intocado. O roxo, para ele, era excesso, era ruído, era um chamado que não desejava responder.


— Eu gosto de ser apenas o que sou — murmurou o azul, com a serenidade que lhe era própria. — Não quero me dissolver em algo que não reconheço.


E, assim, pouco a pouco, o azul foi se afastando. Primeiro, deixou de estar sempre presente nas conversas, depois reduziu os encontros, até que sua distância tornou-se oceano.


O vermelho, por sua vez, continuava ardendo, mas agora sozinho, carregando dentro de si a mancha violeta como uma lembrança — bela, dolorosa, irrepetível.


O tempo passou, e o vermelho foi se acostumando à ausência do azul. No começo, a falta era como uma ferida aberta: cada pôr do sol trazia de volta a lembrança do violeta que haviam sido por um instante. Mas, à medida que os dias avançavam, o vermelho começou a perceber que a saudade também podia ensinar.


Enquanto isso, o azul seguiu seu caminho. Encontrou o verde — uma cor suave, fresca, que lhe oferecia um espaço tranquilo para existir sem precisar se desfazer. Ao lado do verde, o azul floresceu como um lago refletindo uma floresta. Não havia intensidade violenta, não havia medo de dissolução — apenas harmonia.


O vermelho viu de longe. Sentiu a pontada da perda, é verdade, mas aos poucos aprendeu a olhar para si. Lembrou-se de como era antes de conhecer o azul: vivo, vibrante, imponente. Redescobriu o prazer de arder sozinho, de iluminar sem depender de outra cor para existir.


Ele percebeu que, embora a mistura tivesse sido bela por um instante, seu maior poder estava em ser inteiro, em brilhar com sua própria força. E, assim, aceitou: não precisava se diluir para ser extraordinário.


No fim, o vermelho caminhou de volta para si mesmo — único, vibrante, capaz de incendiar o mundo sem precisar se apagar em ninguém.


O vermelho aprendeu que nem toda beleza compartilhada é destinada a durar, e que algumas cores existem apenas para nos mostrar, por um instante, o que poderia ter sido. Descobriu que não é na mistura que está sua verdade, mas na chama que guarda dentro de si.


Entendeu que o amor pode ser deslumbrante mesmo quando não permanece, e que a dor de perder também revela quem somos quando resta apenas a nós mesmos.


E, assim, o vermelho guardou o violeta como memória, mas não como destino. Porque, no fim, compreendeu que ser inteiro é mais precioso do que se perder para caber em outro.



Dauan Lopez, estudante de letras pela UEAP, nascido em Macapá e crescido no Bailique, desenvolveu um grande amor pela leitura aos 8 anos e aos 12 começou a escrever seus próprios contos. Poeta, amante de Clarice Lispector e desenhista.

 
 
 

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