Livro infantil de Lulih Rojanski retrata cotidiano de escola quilombola
- juliarojanski
- há 23 horas
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A escritora amapaense Lulih Rojanski lança seu primeiro livro voltado ao público infantil, ampliando sua atuação literária com uma obra que mergulha no cotidiano de uma escola quilombola de Macapá. Publicado pela Editora O Zezeu, por meio do selo infantil Zim, o título apresenta, em versos, a rotina de crianças que crescem cercadas por memória, cultura e pertencimento.
A narrativa acompanha o dia a dia escolar desde o amanhecer na Lagoa dos Índios até os momentos de lazer que movimentam o pátio. Com linguagem poética, a obra retrata experiências que vão além do ensino formal: as crianças aprendem sobre seus ancestrais, a memória quilombola e a herança cultural da comunidade onde vivem. Elementos como o marabaixo, a capoeira e as brincadeiras no gramado aparecem como parte essencial da formação, mostrando que a educação também se constrói por meio da vivência cultural.

O livro descreve uma escola que se confunde com o próprio território afetivo dos alunos. O ônibus “pintado de sol”, as professoras que assumem o papel de madrinhas e a sombra da ameixeira criam um ambiente acolhedor, onde aprender significa também fortalecer raízes. A proposta reforça a ideia de que o espaço escolar pode ser, ao mesmo tempo, lugar de conhecimento, proteção e construção de identidade.
Na orelha da obra, a autora contextualiza a história da Comunidade Quilombola da Lagoa dos Índios, uma das mais tradicionais da capital amapaense. Fundada em 1802 como refúgio para pessoas negras que fugiam da escravidão, a localidade se estabeleceu em uma área de ressaca, o que garantiu condições de sobrevivência, preservação ambiental e manutenção de práticas culturais ao longo de cerca de dois séculos.
Apesar do reconhecimento da posse das terras aos descendentes dos moradores originais, em 1962, a comunidade enfrentou desafios constantes, como o racismo e a ocupação irregular do território. Até a década de 1980, os moradores mantinham modos de vida baseados na pesca, agricultura, pecuária e extrativismo, com uso coletivo dos recursos naturais. Com a expansão urbana de Macapá, no entanto, a área passou a sofrer pressões crescentes, colocando em risco a continuidade cultural e territorial do quilombo.
Sobre a autora

Nascida no Paraná, Lulih Rojanski é descendente de imigrantes poloneses que chegaram ao Brasil nas primeiras décadas do século XX. Em 1984, mudou-se para a Amazônia, onde construiu sua trajetória pessoal e profissional. Graduada em Letras, com habilitação em língua portuguesa e literatura, atua há mais de 30 anos em sala de aula, conciliando o ensino com a produção literária.
Ao longo de sua carreira, a autora publicou contos e crônicas em diversas coletâneas e consolidou seu nome no Amapá, onde suas obras já foram utilizadas em provas de concursos públicos. Sua escrita também integra antologias nacionais e binacionais, incluindo publicações entre Brasil e Portugal.
Entre seus livros estão Lugar da Chuva (crônicas), Abilash (conto), Pérolas ao Sol (crônicas), Gatos Pingados (contos), Feras Soltas e Amores Enterrados no Jardim (romances), além de Estatutos da Mulher da Amazônia (poemas). Agora, com Nossa Escola Quilombola, a escritora estreia na literatura infantil, reafirmando seu compromisso com narrativas que valorizam memória e pertencimento.
O projeto do livro foi contemplado pelo edital nº 003/2024 da Secretaria de Cultura do Amapá, o que possibilitou sua publicação e ações de difusão. Como parte dessa iniciativa, exemplares serão doados à comunidade e à escola retratada na obra. Ao longo do mês de abril, também estão previstas atividades de contação de histórias com a participação de um contador convidado, aproximando ainda mais as crianças do universo literário e de suas próprias narrativas.
Com a nova publicação, Lulih Rojanski amplia seu alcance ao dialogar com o público infantil e reforça a importância de contar histórias que preservem saberes e experiências das comunidades amazônicas.




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