Humberto Moreira: O mestre que ensinou o Amapá a ouvir
- Silvio Carneiro
- 27 de jul.
- 4 min de leitura
Uma homenagem ao ícone do rádio e do jornalismo amapaense, cuja voz e humildade marcaram gerações.
Por Silvio Carneiro | 27 de julho de 2026

Em março de 2005, iniciei minha carreira de professor no curso de Jornalismo da extinta Faculdade Seama. Fazia pouco mais de dois meses que eu havia desembarcado de mala e cuia em Macapá, e aquela seria minha primeira experiência em sala de aula.
Lembro-me bem daquela noite. Na sala dos professores, uma conversa rolava animada entre os veteranos e os novatos que, como eu, tinham pela frente a missão de formar as primeiras duas turmas de Jornalismo do estado. Isso mesmo: naquela época, 21 anos atrás, a realidade do jornalismo no Amapá era bem diferente. Quase não havia profissionais com formação superior no estado. Uma minoria, contada nos dedos de uma mão, tinha se formado fora — principalmente no Pará —, enquanto a maioria era composta pelos chamados “jornalistas provisionados”. Eram profissionais que exerciam o ofício na raça; não possuía diploma, apenas uma licença (o DRT) para trabalhar em jornais, emissoras de rádio e televisão.
Havia, inclusive, uma certa rixa entre a “velha guarda” provisionada e o “jovem guarda” diplomada ou em busca de diploma. Era aquela velha máxima de que a faculdade não forma ninguém e de que o jornalismo se aprende "em campo".
O Choque de Gerações e a Sala de Aula
Voltando à sala dos professores, eu conversava com minha colega Márcia Aquino. Ela era titular da disciplina de Radiojornalismo II (7° semestre) e eu acabara de assumir o Radiojornalismo I (6° semestre). Márcia foi logo me avisando, com aquele sotaque gaúcho carregadíssimo:
"Tchê, te prepara. Essa turma que você vai pegar agora é cheia dos bam-bam-bam do jornalismo amapaense. O pessoal da TV Amapá tá em peso lá. Tem assessor do Sebrae, assessor de deputado e senador. E tem um cara que é uma das maiores referências do rádio aqui. O nome dele é Humberto Moreira. Respeitadíssimo."
Eu apenas respondi "ok" e me encaminhei para a sala de aula.
Entrei, coloquei meu material em cima da mesa e cumprimentei a turma. Boa parte dos presentes tinha idade para ser meu pai ou minha mãe, e as muitas cabeças já grisalhas chamavam minha atenção. O primeiro contato foi daquele jeito. Eu li o pensamento da maioria estampado nos semblantes: "O que é que esse rapaz está fazendo aqui?" .
Me apresentei como o novo professor de Radiojornalismo, quando alguém disparou em tom de gozação: "Aí, Humberto! Agora você aprende a trabalhar em rádio!" . A gargalhada tomou conta do ambiente. Eu ri também, claro, pois não poderia me deixar intimidar. Mas, quando o riso cessou, um senhor baixinho, de pele escura e semblante muito tranquilo, abriu a boca e falou com aquela voz inconfundível dos grandes locutores:
"Professor, não ligue. Todos estão aqui porque precisam aprender."
Aquele era Humberto Moreira , um dos nomes mais completos e importantes da comunicação no Amapá. Uma referência absoluta na rádio, na televisão, no jornal impresso e até na música.
Sua formação começou nas escolas paroquiais Padre Dário e São José, completando o ginásio no Instituto de Educação do Amapá (IETA). Em 2006, já com vasta experiência prática, formou-se em Jornalismo pela Faculdade Seama, coroando academicamente uma trajetória vívida com intensidade desde a adolescência.
O Aluno que Virou Mestre
Anos depois, em 2010, tive a satisfação de reencontrar meu querido amigo Humberto nos corredores da Rádio Difusora de Macapá. Se, em 2005, eu dei aulas que versavam sobre as teorias e técnicas de radiojornalismo, em 2010, foi a vez do mestre retribuir, me dando grandes aulas de como se faz radiojornalismo na prática. Trabalhamos juntos na apuração dos votos das eleições majoritárias e na transmissão da Copa do Mundo da África do Sul.
Humberto carregava uma bagagem impressionante: em 1975, dois anos antes de eu nascer, ele já era apresentador esportivo, âncora de telejornal e chefe do Departamento de Jornalismo da TV Amapá. Construiu carreira na Radiobrás integrando a equipe da Rádio Nacional, onde mais tarde chegou à gerência.
Em seu currículo, constavam transmissões ao vivo diretamente do Japão para as finais da Copa Toyota, cobrindo confrontos históricos como Vasco da Gama x Real Madrid e Palmeiras x Manchester United. Também esteve à frente, com firmeza e sensibilidade, da cobertura jornalística do naufrágio do barco Novo Amapá, em 1981, um dos episódios mais trágicos da navegação local.
O Último Capítulo
Aos 76 anos muito bem vívidos, com quase seis décadas de contribuição ininterrupta, Humberto Moreira deixa um legado que vai muito além da técnica ou da notícia. Ele ajudou a construir o jornalismo no Amapá, e sua voz permanecerá viva na memória afetiva de quem acompanhou essa trajetória. O jornalismo e a cultura do Amapá ficaram órfãos de um de seus maiores comunicadores.
Da última vez que nos encontramos, ele ficou exultante ao saber que eu estava à frente da Editora O Zezeu, junto com a Lulih Rojanski, e confidenciou seu desejo de publicar sua autobiografia. Quando falei que queríamos publicá-la imediatamente, ele riu e disse:
"Professor, eu estarei viajando na semana que vem para fazer mais uma etapa do meu tratamento de saúde e vou escrever o último capítulo da minha autobiografia sobre isso. Esse vai ser o último capítulo. Eu sei que essa vai ser uma página virada da minha história. Quando eu voltar de viagem, lhe entrego os originais."
Eu respondi: "Ficarei aguardando".
Continuo aguardando aqui, meu amigo.




Salve, Silvio, belo relato sobre a inigualável história de Humberto, que foi meu tema de TCC que me deu o grau de jornalista entre as primeiras turmas de Comunicação do Amapá que tu citaste. Moreira já figurava no panteão dos grandes, seguirá narrando sua inspiradora trajetória por aí. Não morre quem é referência, portanto, nossas reverências ao mestre! Abraço, Raul Mareco