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Machado de Assis e
o homem moderno

Machado de Assis foi o maior gênio da literatura brasileira. Seus livros encantam leitores ao redor do mundo. Eu, particularmente, prefiro o Machado contista ao romancista. Seus contos possuem algo de profundo e sarcástico que apenas os grandes são capazes de equilibrar com a eficiência necessária para escapar à caricatura.

 

Para compreendermos a relação entre Machado e o homem moderno, faz-se necessário, antes, recuarmos cerca de dois mil anos e lembrarmos que São Paulo nos apresenta duas categorias de homens: “interior” e “exterior”. Sobre essas categorias, o magistral Gustavo Corção explica em seu livro “Dois Amores, Duas Cidades”:

“[...] Que categorias são essas que designamos com os termos "exterior" e "interior"? Usados por São Paulo (2Cor 4,16) e por toda a tradição cristã, não designam pura e simplesmente as partes de composto humano, voltada uma para o corpóreo e sensível e a outra para as coisas do espírito, mas também implicam uma ideia de valor e de atitude em face desses valores. O homem voltado para o exterior, ou conduzido pelo homem-exterior, não é pura e simplesmente o sensual, é aquele que mesmo nas coisas do espírito usa os critérios das exterioridades, como por exemplo o professor que quer "brilhar" e o político que quer "prestígio", e também aquele que nas coisas da carne põe o dinamismo do espírito a elas submetido. Todas as perversidades e abusos dos sentidos são amplificados por uma espécie de glorificação espiritual subvertida.”

 

Vaidade, tudo é vaidade.

Machado se debruça magistralmente sobre estes temas nos contos "Teoria do Medalhão" e "O Espelho".

No primeiro, um pai ensina seu filho como tornar-se um medalhão, ou seja, como alcançar o sucesso pela mediocridade. Diz o pai:

“[...] o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável [...]”.

 

E explica em seguida como trilhar esse caminho sem se aprofundar em nenhum assunto filosófico, artístico ou transcendente.

 

“[...] Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente [...]”.

O pai aconselha até mesmo que seu filho não ande desacompanhado “porque a solidão é oficina das ideias”.

 

E sugere que seu filho use algumas ferramentas que apenas adornem sua fala e lhe deem um ar de intelectual sem que propriamente o seja:

“[...] podes empregar algumas quantas figuras expressivas [...]. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-las contigo [...]. Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustradas na memória individual e pública. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil [...]”.

E não se restringe apenas às frases feitas e moldadas no lugar comum, mas também sugere adornar a fala através do apelo à autoridade científica:

“[...] O mesmo direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la. [...]”.

Aqui, o pai sugere que seu filho decore a terminologia científica para usá-la de forma vazia e em proveito próprio, lançando aos ouvintes uma falsa aparência intelectual que o envaidece e favorece apenas o homem-exterior.

 

O pai chega a concluir de forma direta:

“[...] proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc. [...]”.

É o ensinamento do sucesso no mundo das aparências, tão sedimentado no mundo e no homem moderno que inegavelmente dão mais valor ao diploma do que ao conhecimento em si. Não se estuda mais pelo conhecimento e pela busca da verdade; pela sabedoria como um fim em si mesmo, mas por uma finalidade de tornar-se “doutor” ou arrematar um cargo público, um emprego. Importa é ser visto e bem visto.

 

Não raramente se vê no mundo moderno bacharéis com diploma e pouco estudo sustentando com ar blasé a defesa do “estado democrático de direito” ao mesmo tempo em que são incapazes de definir o que seja um estado democrático de direito; também não é raro ver esse mesmo homem moderno, envaidecido pela própria imagem de seu homem-exterior inflado, usando terminologia científica, recorrendo a termos que não compreende, e muitas vezes sem compreender sequer como se dá o método científico. É o reflexo do espírito burguês.

 

E nesse reflexo, nessa paixão que o homem de espírito burguês e individualista tem pela vaidade que sente ao ver como o seu Eu se apresenta aos outros, Machado nos dá o conto "O Espelho", onde temos contato com o “esboço de uma nova teoria da alma humana.”

 

No conto, o personagem Jacobina explica que:

“[...] não há uma só alma, há duas... [...] Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro. [...]”.

Jacobina então conta a história de um rapaz que, ao virar alferes, começa a receber inúmeras bajulações de seus familiares. O cargo de alferes nem era lá grande coisa, porém foi digno de vaidade suficiente para receber em seu quarto um espelho velho e gasto, mas adornado em ouro e pertencente à corte de D. João VI, onde o rapaz poderia admirar-se no uniforme.

 

No fim do conto, o rapaz está tão encantado com aquela posição social que já não consegue mais dissociar ele mesmo do cargo que ocupa. E mesmo que se mostre um completo inútil até para cuidar sozinho da casa, ainda resta o orgulho que lhe ergue a cabeça de ter o uniforme; ele é o uniforme, ele é o cargo, ele é o próprio reflexo. Assim como um homem moderno que prioriza o homem-exterior, independentemente de sua ignorância, ostentará ao mundo o orgulho de seu diploma, que vale muito; vale até mais que o conhecimento.

 

E eis o que ensina Corção:

“A moral e a psicologia burguesa giram em torno da primordial valorização do homem-exterior”.

Em dois contos, "Teoria do Medalhão" e "O Espelho", Machado conseguiu captar de forma tão profunda o espírito de uma nação que se volta à valorização de uma moral de caráter antropocêntrico, ausente de instâncias superiores, que valoriza aparências, que mesmo hoje, mais de 100 anos após sua morte, os contos continuam, infelizmente, sendo o retrato fiel da mentalidade egoísta do homem moderno.

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